Wednesday, November 10, 2010

Personalidades não tão díspares


Dois documentários de Nelson Hoineff sobre personalidades a princípio totalmente diferentes: Chacrinha e Paulo Francis.
"Alô, Alô, Teresinha" é sobre o apresentador que durante uns bons 30 anos quase ininterruptos esteve presente em alguma emissora de TV ( e passou por quase todas elas).Mas engana-se quem pensa tratar-se de uma biografia de Chacrinha, expondo cronológicamnete a sua trajetória, dando um amplo painel de sua carreira."Alô, Alô, Teresinha" fala sobre aqueles que, digamos, gravitavam ao redor do personagem, que de alguma forma tiveram participação constante ou não em seu programa.As chacretes, os cantores, assistentes de palco, produtores, calouros, etc.Mostra-nos como eram e como estão atualmente.E daí vem o tom de decadência que permeia o filme.Principalmente no que diz respeito às chacretes, antes lindas e exuberantes, ganhando muito bem, sendo vistas na principal rede de TV, hoje decaídas física e financeiramente, vivendo como podem, porém dignamente, uma é cozinheira, outra cuida de cães, etc.Mas ainda mantendo no armário as vestimentas usadas naquela época gloriosa.São como ex-vedetes que não tem outra saída a não ser se conformar com o que a vida lhes reservou.Os calouros ridículos em sua credulidade, reprovados pelo Velho Guerreiro, ainda magoados, persistindo no sonho do sucesso, vivendo em favelas.Sendo que o filme também vai atrás dos que foram bem sucedidos e ainda hoje são lembrados por suas aparições no programa.Os cantores profissionais são os que mostram maior gratidão e dele tem as melhores lembranças.E aí pode-se depreender que o apresentador fazia uma distinção de tratamento entre os profissionais e amadores.Para uns, os píncaros da glória, aos outros a ridicularização.Mas, no fundo, Chacrinha era como o deus Dioniso, do vinho e da alegria, incontrolável, gozador, inconsequente, algumas vezes passando dos limites e até mesmo sendo cruel com os ingênuos que o procuravam na TV.O que não o impedia de ser idolatrado por essa mesma faixa da população, a ela dever todo o seu sucesso.Seria isso uma contradição ou talvez esse povo pobre visse a si mesmo nos exageros do Velho Guerreiro?
Já Paulo Francis ocupa um lado oposto da cultura midiática.Intelectual temido, destemido, polêmico, colecionador de desafetos e de fãs, brilhante em sua retórica, foi durante muito tempo o comentarista mais comentado da imprensa brasileira."Caro Francis" também não faz um retrato cronológico da vida e da carreira do personagem.Através de depoimentos de amigos e detratores, de casos esparsos, vai formando a sua figura, mostrando suas incongruências, sua generosidade, sua mudança de mentalidade política, a ojeriza ao pensamento políticamente correto, ao pop, ao socialismo (apesar de ter sido trotskista na juventude) e apesar da distância que fazia questão de manter da cultura pop, ele mesmo começou a fazer parte dessa cultura, principalmente depois que se tornou comentarista da TV Globo, nos anos 80.A fama que isso lhe trouxe acabou fazendo com que fosse satirizado por vários humoristas, até mesmo depois da sua morte.Francis era amante da chamada "alta cultura", das óperas de Wagner principalmente, e Hoineff pega esse gancho para identificá-lo como um personagem wagneriano.Daí o final de teor trágico que escolhe para o seu filme, algo que acaba não caindo muito bem e dando uma falsa impressão de que Francis morrera vítima de um suposto plano arquitetado por diretores da Petrobras (transformados nos vilões dessa ópera) que haviam processado o jornalista por uma declaração sua, sem provas, de que teriam dinheiro em contas na Suíça.
Foi dito mais acima que os dois personagens - Chacrinha e Francis - aparentemente não teriam nada em comum.Pois uma das características comuns aos dois era a irreverência.Tanto um como o outro, em certos momentos, subvertem a ordem, criam uma anarquia e às vezes até subvertem sua própria imagem.Tanto Chacrinha poderia tornar-se implacável como Francis poderia mostrar-se tão debochado quanto o Velho Guerreiro.
O diretor Nelson Hoineff, de longa carreira na televisão, é mais conhecido pelo programa "Documento Especial", da extinta TV Manchete, em que abordava aspectos obscuros da sociedade, assuntos tabu (até então) como prostituição, homossexualismo, espiritismo e outros, sempre com um tom documental, sem meias palavras ou atenuações na abordagem.Nos dois documentários aqui nota-se a intenção de que não sejam definitivos.Não se tratam de biografias fechadas e sim de comentários, perfis bem particulares, daí talvez advenham suas falhas, o que não impede que sejam apreciados pelos admiradores dos dois comunicadores.





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