Wednesday, November 10, 2010
Corações Partidos
Pedro Almodovar vem utilizando com muita propriedade o melodrama há já algum tempo, mas desta vez com Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos), incursiona pelo cinema noir, e se sai tão bem quanto os mestres do gênero.O filme conta a história de Mateo, um roteirista cego que tenta acertar as contas com seu passado trágico.Ex-diretor de cinema, quando ainda enxergava, se apaixonou pela atriz principal de seu filme, coincidentemente também esposa do produtor.A atriz deslumbrante é Lena (Penélope Cruz), que no passado dividia-se entre o trabalho como secretária de um velho e rico empresário e os afazeres como prostituta.Depois de casada - com o tal empresário (e também futuro produtor do filme) - e de ter resolvido todos os seus problemas financeiros, decide dedicar-se à carreira de atriz, apesentando-se ao diretor Mateo.
Almodovar vem aprimorando seu estilo filme a filme, e acertando sempre.Consegue extrair grandeza dos episódios mais prosaicos e um certo prosaísmo das mais tensas e trágicas situações.As cores fortes dos cenários e figurinos servem mais como ênfase da passionalidade de suas tramas do que a um possível edulcoramento da vida.
Seus personagens não se furtam a realizar seus anseios, antes agem como se não houvesse outra escolha.No final a paixão é sempre mais forte que a razão.E o humor, por pior que seja a situação sempre acaba se imiscuindo, coisa que o fã do cineasta já conhece e prevê quase que a cada sequência.
Abraços Partidos pode ser descrito como uma mistura de telenovela com cinema noir, dois gêneros que Almodovar conhece bem e que no fundo talvez não sejam assim tão diferentes.Tanto um como outro têm códigos muito bem precisos, sabemos quem são os mocinhos e os bandidos, aqueles que desprezaremos e a quem iremos desejar.E aqui, diga-se de passagem, o desejo recai todo sobre Penelope Cruz.
Almodovar vem aprimorando seu estilo filme a filme, e acertando sempre.Consegue extrair grandeza dos episódios mais prosaicos e um certo prosaísmo das mais tensas e trágicas situações.As cores fortes dos cenários e figurinos servem mais como ênfase da passionalidade de suas tramas do que a um possível edulcoramento da vida.
Seus personagens não se furtam a realizar seus anseios, antes agem como se não houvesse outra escolha.No final a paixão é sempre mais forte que a razão.E o humor, por pior que seja a situação sempre acaba se imiscuindo, coisa que o fã do cineasta já conhece e prevê quase que a cada sequência.
Abraços Partidos pode ser descrito como uma mistura de telenovela com cinema noir, dois gêneros que Almodovar conhece bem e que no fundo talvez não sejam assim tão diferentes.Tanto um como outro têm códigos muito bem precisos, sabemos quem são os mocinhos e os bandidos, aqueles que desprezaremos e a quem iremos desejar.E aqui, diga-se de passagem, o desejo recai todo sobre Penelope Cruz.
Namorada de Programa
O filme Confissões de Uma Garota de Programa, de Steven Soderbergh, foi rechaçado pela crítica brasileira e ignorado pelo público, por isso a minha expectativa ao assiti-lo não era das melhores.Ou seja, esperava ver um filme no mínimo chato.Mas qual foi a minha surpresa, ao descobrir que os críticos, vejam só, estavam errados."The Girlfriend Experience" é um filme interessante, atípico no panorama do cinema americano, dirigido por um cineasta que trafega com desenvoltura não só pelo mainstream como também pelo circuito dito "alternativo".
O filme conta a história de Chelsea, uma garota de programa que serve à alta classe de Nova York, ou seja, corretores da bolsa, economistas, empresários e endinheirados em geral, que antes (ou durante) as transas parecem mais preocupados com a crise econômica e procuram o sexo pago mais com o intuito de desestressar do que ter uma relação sexual decente.
Chelsea é linda, inteligente, culta o suficiente para conversar de igual pra igual com seus clientes, e alguns a procurarão apenas para conversar.Ela namora um personal trainer que também atende à alta-roda novaiorquina e não parece se incomodar com a ocupação de sua garota.Chelsea é dura como uma mulher de negócios, calculista e estritamente profissional até o dia em que encontra um cliente que ira desestabilizar suas convicções.
A história nos é apresentada de forma descontínua, com avanços e recuos no tempo, fazendo com que o desfecho de alguns episódios apareça no começo e só saibamos como tudo começou, no final.
A jovem Chelsea é interpretada pela atriz pornô Sacha Grey, e a ironia é que não há uma única cena de sexo ou mesmo de nudez em todo o filme.Chama a atenção a fotografia - belíssima - no registro da opulência vazia, e por vezes árida, dos sagões de hotéis e restaurantes na Big Apple, um mundo em que só o dinheiro importa, e por mais que se consiga tê-lo nunca parece o bastante.
Se tudo isso não faz de Confissões... um ótimo filme não sei mais o que faria.
O filme conta a história de Chelsea, uma garota de programa que serve à alta classe de Nova York, ou seja, corretores da bolsa, economistas, empresários e endinheirados em geral, que antes (ou durante) as transas parecem mais preocupados com a crise econômica e procuram o sexo pago mais com o intuito de desestressar do que ter uma relação sexual decente.
Chelsea é linda, inteligente, culta o suficiente para conversar de igual pra igual com seus clientes, e alguns a procurarão apenas para conversar.Ela namora um personal trainer que também atende à alta-roda novaiorquina e não parece se incomodar com a ocupação de sua garota.Chelsea é dura como uma mulher de negócios, calculista e estritamente profissional até o dia em que encontra um cliente que ira desestabilizar suas convicções.
A história nos é apresentada de forma descontínua, com avanços e recuos no tempo, fazendo com que o desfecho de alguns episódios apareça no começo e só saibamos como tudo começou, no final.
A jovem Chelsea é interpretada pela atriz pornô Sacha Grey, e a ironia é que não há uma única cena de sexo ou mesmo de nudez em todo o filme.Chama a atenção a fotografia - belíssima - no registro da opulência vazia, e por vezes árida, dos sagões de hotéis e restaurantes na Big Apple, um mundo em que só o dinheiro importa, e por mais que se consiga tê-lo nunca parece o bastante.
Se tudo isso não faz de Confissões... um ótimo filme não sei mais o que faria.
O Outro Lado
Tokyo é um filme composto por três histórias que, claro, se passam na megalópole oriental.Na primeira, dirigida por Michel Gondry, um jovem casal de namorados tenta a sorte na cidade, contando com a ajuda de uma amiga que os hospeda por um tempo que deveria ser curto mas que vai se prolongando além da conta.O rapaz é um aspirante a cineasta que se vê obrigado a trabalhar como empacotador, enquanto sua namorada, a quem acusa de não ter ambições na vida, bate perna o dia inteiro atrás de um apartamento decente para os dois, e as opções que aparecem são as piores possíveis.
Na segunda história, dirigida por Leos Carax, a população é aterrorizada por uma estranha figura, um habitante dos subterrâneos que sai à luz esporadicamente para cometer os mais variados tipos de violência contra tudo e todos.
Na terceira, dirigida por Joonh-Ho, um jovem recluso que decidira cortar os laços com o mundo exterior, tendo sua casa lotada de mantimentos para sobreviver no isolamento, resolve em nome de uma inesperada paixão por uma entregadora de pizzas, sair da sua toca, descobrindo, para seu espanto, não ter sido a única pessoa a se isolar.
Os três episódios são bem diferentes entre si, mas todos tem algo em comum, uma idéia que os perpassa, a de que por mais que o progresso e a tecnologia, o dinheiro, nos proporcione satisfação material, sempre haverá um aspecto de nosso ser não coberto pelo que esse mundo material tem a nos oferecer.Um certo canto obscuro da nossa alma, ainda permanecerá insondável, inexplicável como o surgimento de um ser vindo dos esgotos em meio a um mundo tecnológico, ou a falta de ineteresse numa existência competitiva, norteada pela visão de é preciso subir na vida, ou tão exdrúxulo e contraditório como o desejo de isolamento numa época saturada por formas de comunicação.
Na segunda história, dirigida por Leos Carax, a população é aterrorizada por uma estranha figura, um habitante dos subterrâneos que sai à luz esporadicamente para cometer os mais variados tipos de violência contra tudo e todos.
Na terceira, dirigida por Joonh-Ho, um jovem recluso que decidira cortar os laços com o mundo exterior, tendo sua casa lotada de mantimentos para sobreviver no isolamento, resolve em nome de uma inesperada paixão por uma entregadora de pizzas, sair da sua toca, descobrindo, para seu espanto, não ter sido a única pessoa a se isolar.
Os três episódios são bem diferentes entre si, mas todos tem algo em comum, uma idéia que os perpassa, a de que por mais que o progresso e a tecnologia, o dinheiro, nos proporcione satisfação material, sempre haverá um aspecto de nosso ser não coberto pelo que esse mundo material tem a nos oferecer.Um certo canto obscuro da nossa alma, ainda permanecerá insondável, inexplicável como o surgimento de um ser vindo dos esgotos em meio a um mundo tecnológico, ou a falta de ineteresse numa existência competitiva, norteada pela visão de é preciso subir na vida, ou tão exdrúxulo e contraditório como o desejo de isolamento numa época saturada por formas de comunicação.
Nossa Última Chance
Tinha Que Ser Você (Last Chance Harvey) conta a história de um homem e uma mulher que depois de tantas desilusões ao longo da vida resolvem viver à margem dela.Harvey Shrine (Dustin Hoffman) é um compositor de jingles, pianista de jazz frustrado, prestes a ser dispensado do trabalho, vai a Londres para o casamento da filha.Lá fica patente que o distanciamento entre eles não é apenas territoial.Os dois nem sequer se abraçam ao se reencontrarem, e pior, a filha comunica-lhe que pedirá ao futuro sogro que a leve ao altar.
Do outro lado Katie Walker (Emma Thompson), uma funcionária da divisão de pesquisas do aeroporto de Heathrow, vive apenas para seu tabalho e sua mãe.De vez em quando amigas arranjam um blind date na tentativa de que Kate encontre seu príncipe encantado mas ela acaba sempre decepcionada.Parece prestes a iver pra sempre só.
Bem, como a razão do filme é o encontro dos dois, isso, é claro, acontece e depois de uma certa resistência da parte dela, acabam descobrindo ser ainda possível encontrarem um final feliz.
Certo, mas o que faz deste um filme tão encantador?Bem, primeiro as atuações de Dustin e Emma.Desproporcionais na estatura, o americano baixinho e a inglesa altona, dificilmente alguém aceditaria que descem um bonito casal.E no entanto, por isso mesmo, nos cativam.Depois, a torcida pela redenção dos dois personagens.De certa forma podemos nos identificar com eles.Quem nunca sonhou em encontrar sua cara metade?Mas, espere um pouco, quem disse que eles são a cara metade um do outro?Nada disso, e nem foi por isso que se interessam mutuamente.O que os uniu foi o destino e uma série de coicidências, de promessas não cumpridas, de frustrações distintas, não por se descobrirem fãs de beisebol ou de Susan Boyle.E afinal, depois de uma certa idade já não somos tão seletivos.Em uma das falas do filme Kate pergunta a Harvey se ele sabe onde está se metendo e ele responde com a maior tranquilidade:"Não tenho a menor ideia".
Last Cahnce Harvey é um filme que nos caiva pela sua delicadeza, pelo humor discreto, pea elegância e por uma história em que torcemos para que tudo acabe bem, pois se Harvey e Kate se aertaram talve nós também tenhamos direito a uma última chance.
Do outro lado Katie Walker (Emma Thompson), uma funcionária da divisão de pesquisas do aeroporto de Heathrow, vive apenas para seu tabalho e sua mãe.De vez em quando amigas arranjam um blind date na tentativa de que Kate encontre seu príncipe encantado mas ela acaba sempre decepcionada.Parece prestes a iver pra sempre só.
Bem, como a razão do filme é o encontro dos dois, isso, é claro, acontece e depois de uma certa resistência da parte dela, acabam descobrindo ser ainda possível encontrarem um final feliz.
Certo, mas o que faz deste um filme tão encantador?Bem, primeiro as atuações de Dustin e Emma.Desproporcionais na estatura, o americano baixinho e a inglesa altona, dificilmente alguém aceditaria que descem um bonito casal.E no entanto, por isso mesmo, nos cativam.Depois, a torcida pela redenção dos dois personagens.De certa forma podemos nos identificar com eles.Quem nunca sonhou em encontrar sua cara metade?Mas, espere um pouco, quem disse que eles são a cara metade um do outro?Nada disso, e nem foi por isso que se interessam mutuamente.O que os uniu foi o destino e uma série de coicidências, de promessas não cumpridas, de frustrações distintas, não por se descobrirem fãs de beisebol ou de Susan Boyle.E afinal, depois de uma certa idade já não somos tão seletivos.Em uma das falas do filme Kate pergunta a Harvey se ele sabe onde está se metendo e ele responde com a maior tranquilidade:"Não tenho a menor ideia".
Last Cahnce Harvey é um filme que nos caiva pela sua delicadeza, pelo humor discreto, pea elegância e por uma história em que torcemos para que tudo acabe bem, pois se Harvey e Kate se aertaram talve nós também tenhamos direito a uma última chance.
Édipo Rei - DVD
Cada filme de Pier Paolo Pasolini é uma preciosidade, e não poderia ser diferente com este "Édipo Rei", de 1967.Nesta versão da tragédia de Sófocles, Franco Citti é o personagem título e Silvana Mangano, sua mãe Jocasta.A ação inicia-se na Itália Fascista para subitamente transportar-se para a Antiga Grécia.Assim mesmo, sem explicações, a ponto de nem percebermos de pronto a mudança de tempo e espaço.
A composição das cenas é impecável, tudo acontece como num jogo de xadrez, fazem lembrar pinturas do período setecentista.O silêncio grave do deserto envolve a gravidade dos acontecimentos.
E grande parte do filme é composta de silêncios (graves de significados), em seus dez minutos iniciais não se ouve uma palavra, mas delas não sentimos falta, pelo arrebatamento das imagens e a maestria com que o diretor as apresenta.
A câmera trêmula como um contraponto a grandiosidade do cenário (coisa que hollywood nunca faria), os figurinos vibrantes, os olhares, a beleza dos corpos.
Pena que a dublagem italiana não nos permita ouvir a voz do célebre fundador do Living Theatre, Julien Beck.Franco Citti é uma espécie de alter-ego de Pasolini.
Èdipo Rei é um filme que mereceria um estudo que esquadrinhasse cada cena, cada diálogo, num um simples texto limitado como este.
A composição das cenas é impecável, tudo acontece como num jogo de xadrez, fazem lembrar pinturas do período setecentista.O silêncio grave do deserto envolve a gravidade dos acontecimentos.
E grande parte do filme é composta de silêncios (graves de significados), em seus dez minutos iniciais não se ouve uma palavra, mas delas não sentimos falta, pelo arrebatamento das imagens e a maestria com que o diretor as apresenta.
A câmera trêmula como um contraponto a grandiosidade do cenário (coisa que hollywood nunca faria), os figurinos vibrantes, os olhares, a beleza dos corpos.
Pena que a dublagem italiana não nos permita ouvir a voz do célebre fundador do Living Theatre, Julien Beck.Franco Citti é uma espécie de alter-ego de Pasolini.
Èdipo Rei é um filme que mereceria um estudo que esquadrinhasse cada cena, cada diálogo, num um simples texto limitado como este.
Lugar Nenhum
Em "Hotel Atlântico" somos apresentados a um personagem interpretado por Júlio Andrade (de "Cão Sem Dono").Ele não tem nome, nem um destino, apenas vai de cidade em cidade, de hotel em hotel, sem propósito aparente e se o tem também não nos é dito.Escolhendo aleatóriamente sua próxima parada, suas estadias denotam uma despreocupação com dinheiro, e mais tarde saberemos que ele é um ator de telenovelas.
Em suas andanças ele envolve-se com tipos peculiares - um sujeito mal-encarado que lhe propõe uma carona e depois envolve-o numa perigosa trama que poderá lhe custar a vida; um ex-seminarista habitante de um vilarejo no interior de Santa Catarina, cuja companheira, uma simpática gorda, acabará , digamos, lhe cativando a simpatia;e temos também a maravilhosa Mariana Ximenes na pele da filha de um prefeito que tenta a reeleição vinculando falsamente a sua imagem com a do nosso jovem herói andarilho (e as cenas dele aos amassos com ela são quentíssimas).
"Hotel Atlântico" é um filme tão peculiar e estranho quanto seus personagens e as situações que apresenta mas depois dessa estranheza inicial aos poucos somos seduzidos pelo mistério de envolve o personagem de Andrade e nosso interesse é capturado pela expectativa de vermos aonde tantas andanças e encontros o levarão.
Qual seria o seu objetivo? Não se sabe, e talvez nem mesmo ele o saiba.E, afinal, quem já não teve ganas de sair assim, sem destino, nem propósito, apenas seguir para aonde soprasse o vento.
Mas no caso do nosso atormentado ator (sic), ele age como que em busca de alguma coisa, ou talvez tão somente em busca de si mesmo.As partidas e chegadas parecem não lhe fazer a menor diferença, nem mesmo as paisagens que encontra ao longo do caminho lhe são interessantes, ou tão encantadoras quanto a nós, espectadores, presos a nossa lenga-lenga rotineira diária.Não se importa também com a pobreza das acomodações que lhe dão, visto que está sempre de passagem.
Enfim, "Hotel Atlântico" é um filme feito de pequenos episódios, em que muito acontece e nada se explica, nem leva a lugar algum, talvez um pouco como a própria vida, seja a das cidades ou a dos viajantes sem parada.
Em suas andanças ele envolve-se com tipos peculiares - um sujeito mal-encarado que lhe propõe uma carona e depois envolve-o numa perigosa trama que poderá lhe custar a vida; um ex-seminarista habitante de um vilarejo no interior de Santa Catarina, cuja companheira, uma simpática gorda, acabará , digamos, lhe cativando a simpatia;e temos também a maravilhosa Mariana Ximenes na pele da filha de um prefeito que tenta a reeleição vinculando falsamente a sua imagem com a do nosso jovem herói andarilho (e as cenas dele aos amassos com ela são quentíssimas).
"Hotel Atlântico" é um filme tão peculiar e estranho quanto seus personagens e as situações que apresenta mas depois dessa estranheza inicial aos poucos somos seduzidos pelo mistério de envolve o personagem de Andrade e nosso interesse é capturado pela expectativa de vermos aonde tantas andanças e encontros o levarão.
Qual seria o seu objetivo? Não se sabe, e talvez nem mesmo ele o saiba.E, afinal, quem já não teve ganas de sair assim, sem destino, nem propósito, apenas seguir para aonde soprasse o vento.
Mas no caso do nosso atormentado ator (sic), ele age como que em busca de alguma coisa, ou talvez tão somente em busca de si mesmo.As partidas e chegadas parecem não lhe fazer a menor diferença, nem mesmo as paisagens que encontra ao longo do caminho lhe são interessantes, ou tão encantadoras quanto a nós, espectadores, presos a nossa lenga-lenga rotineira diária.Não se importa também com a pobreza das acomodações que lhe dão, visto que está sempre de passagem.
Enfim, "Hotel Atlântico" é um filme feito de pequenos episódios, em que muito acontece e nada se explica, nem leva a lugar algum, talvez um pouco como a própria vida, seja a das cidades ou a dos viajantes sem parada.
Personalidades não tão díspares
Dois documentários de Nelson Hoineff sobre personalidades a princípio totalmente diferentes: Chacrinha e Paulo Francis.
"Alô, Alô, Teresinha" é sobre o apresentador que durante uns bons 30 anos quase ininterruptos esteve presente em alguma emissora de TV ( e passou por quase todas elas).Mas engana-se quem pensa tratar-se de uma biografia de Chacrinha, expondo cronológicamnete a sua trajetória, dando um amplo painel de sua carreira."Alô, Alô, Teresinha" fala sobre aqueles que, digamos, gravitavam ao redor do personagem, que de alguma forma tiveram participação constante ou não em seu programa.As chacretes, os cantores, assistentes de palco, produtores, calouros, etc.Mostra-nos como eram e como estão atualmente.E daí vem o tom de decadência que permeia o filme.Principalmente no que diz respeito às chacretes, antes lindas e exuberantes, ganhando muito bem, sendo vistas na principal rede de TV, hoje decaídas física e financeiramente, vivendo como podem, porém dignamente, uma é cozinheira, outra cuida de cães, etc.Mas ainda mantendo no armário as vestimentas usadas naquela época gloriosa.São como ex-vedetes que não tem outra saída a não ser se conformar com o que a vida lhes reservou.Os calouros ridículos em sua credulidade, reprovados pelo Velho Guerreiro, ainda magoados, persistindo no sonho do sucesso, vivendo em favelas.Sendo que o filme também vai atrás dos que foram bem sucedidos e ainda hoje são lembrados por suas aparições no programa.Os cantores profissionais são os que mostram maior gratidão e dele tem as melhores lembranças.E aí pode-se depreender que o apresentador fazia uma distinção de tratamento entre os profissionais e amadores.Para uns, os píncaros da glória, aos outros a ridicularização.Mas, no fundo, Chacrinha era como o deus Dioniso, do vinho e da alegria, incontrolável, gozador, inconsequente, algumas vezes passando dos limites e até mesmo sendo cruel com os ingênuos que o procuravam na TV.O que não o impedia de ser idolatrado por essa mesma faixa da população, a ela dever todo o seu sucesso.Seria isso uma contradição ou talvez esse povo pobre visse a si mesmo nos exageros do Velho Guerreiro?
Já Paulo Francis ocupa um lado oposto da cultura midiática.Intelectual temido, destemido, polêmico, colecionador de desafetos e de fãs, brilhante em sua retórica, foi durante muito tempo o comentarista mais comentado da imprensa brasileira."Caro Francis" também não faz um retrato cronológico da vida e da carreira do personagem.Através de depoimentos de amigos e detratores, de casos esparsos, vai formando a sua figura, mostrando suas incongruências, sua generosidade, sua mudança de mentalidade política, a ojeriza ao pensamento políticamente correto, ao pop, ao socialismo (apesar de ter sido trotskista na juventude) e apesar da distância que fazia questão de manter da cultura pop, ele mesmo começou a fazer parte dessa cultura, principalmente depois que se tornou comentarista da TV Globo, nos anos 80.A fama que isso lhe trouxe acabou fazendo com que fosse satirizado por vários humoristas, até mesmo depois da sua morte.Francis era amante da chamada "alta cultura", das óperas de Wagner principalmente, e Hoineff pega esse gancho para identificá-lo como um personagem wagneriano.Daí o final de teor trágico que escolhe para o seu filme, algo que acaba não caindo muito bem e dando uma falsa impressão de que Francis morrera vítima de um suposto plano arquitetado por diretores da Petrobras (transformados nos vilões dessa ópera) que haviam processado o jornalista por uma declaração sua, sem provas, de que teriam dinheiro em contas na Suíça.
Foi dito mais acima que os dois personagens - Chacrinha e Francis - aparentemente não teriam nada em comum.Pois uma das características comuns aos dois era a irreverência.Tanto um como o outro, em certos momentos, subvertem a ordem, criam uma anarquia e às vezes até subvertem sua própria imagem.Tanto Chacrinha poderia tornar-se implacável como Francis poderia mostrar-se tão debochado quanto o Velho Guerreiro.
O diretor Nelson Hoineff, de longa carreira na televisão, é mais conhecido pelo programa "Documento Especial", da extinta TV Manchete, em que abordava aspectos obscuros da sociedade, assuntos tabu (até então) como prostituição, homossexualismo, espiritismo e outros, sempre com um tom documental, sem meias palavras ou atenuações na abordagem.Nos dois documentários aqui nota-se a intenção de que não sejam definitivos.Não se tratam de biografias fechadas e sim de comentários, perfis bem particulares, daí talvez advenham suas falhas, o que não impede que sejam apreciados pelos admiradores dos dois comunicadores.
Receita de sucesso
"O Solista", de Joe Wright poderá agradar tanto a cinéfilos de carteirinha quanto a vovós que sempre buscam filmes com uma moral.Nele, o jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr.), na sua busca por uma história interessante pelas ruas de Los Angeles, conhece Nathaniel (Jamie Foxx), um andarilho violoncelista que sofre de esquizofrenia.Fascinado com o talento de Nathaniel, aos poucos Lopez descobre seu passado de brilhante aluno no prestigioso conservatório de Juliard School abandonado depois de constantes crises da doença que o fizeram se afastar não só da arte como da vida em família.
Lopez, que de início só queria escrever um artigo para o Los Angeles Times, acaba incômodamente envolvido com a condição de Nathaniel.Resolve, então, adotá-lo, guiando-o a uma possível carreira musical, coisa que não dá certo pela inconstância mental do "homeless" que simplesmente não consegue se enquadrar nos nossos modos de vida ortodoxos.
Robert Downey Jr. se sai bem no papel do jornalista que se esquiva de comprometimentos pessoais com outras pessoas.Junte-se a isso lindas imagens de L.A., algumas doses discretas de humor e pronto, temos o nosso filme redentor e com uma mensagem positiva.
O que não chega a ser algo condenável ou que nos impossibilite de extrair distração por duas horas.E afinal, nada como nos deixar envolver por uma boa história, relevando certos clichês no roteiro.
Além do que, fãs de Robert Downey Jr. terão mil razões para reafirmar o quanto o cara é bom - e ele é mesmo.
Lopez, que de início só queria escrever um artigo para o Los Angeles Times, acaba incômodamente envolvido com a condição de Nathaniel.Resolve, então, adotá-lo, guiando-o a uma possível carreira musical, coisa que não dá certo pela inconstância mental do "homeless" que simplesmente não consegue se enquadrar nos nossos modos de vida ortodoxos.
Robert Downey Jr. se sai bem no papel do jornalista que se esquiva de comprometimentos pessoais com outras pessoas.Junte-se a isso lindas imagens de L.A., algumas doses discretas de humor e pronto, temos o nosso filme redentor e com uma mensagem positiva.
O que não chega a ser algo condenável ou que nos impossibilite de extrair distração por duas horas.E afinal, nada como nos deixar envolver por uma boa história, relevando certos clichês no roteiro.
Além do que, fãs de Robert Downey Jr. terão mil razões para reafirmar o quanto o cara é bom - e ele é mesmo.
Psych Out - DVD
Na segunda metade dos anos 60, a psicodelia eclodiu pelo mundo, começando pela musica pop, extendendo-se pelas artes plásticas, pela moda e inevitavelmente pelo cinema.Os hippies, os Hell's Angels e correlatos passaram a fazer parte da ordem do dia, tornando-se público alvo das novas produções.Daí surgirem filmes como "The Trip", "Alice in Acidland", "Hell's Angels", "Easy Rider" (o mais famoso) e este "Psych Out".
Realizado em 1968, "Psych Out" traz jovens atores que se notabilizariam por participações em filmes desse estilo: Jack Nicholson, Susan Strassberg, Bruce Dern.Na história, uma jovem rica (Strasberg) submerge no submundo Haight-Ashbury (o bairro dos hippies e freaks de São ,Francisco) atrás do irmão desaparecido. Lá encontra três amigos que formam uma banda de rock dispostos a ajudá-la na missão.A jovem começa um caso de amor com um deles (Nicholson), e assim, entre um ácido e outro eles seguem à procura do irmão da garota, que ressurge perambulando pelas ruas como uma espécie de guru, um profeta do apocalipse, de cabelos longos e barba totalmente surtado.
Enfim, o interesse por filmes assim, na época, vinha obviamente dos jovens que faziam parte daquela cultura e queria ver a si mesmo retratados na tela grande.Hoje em dia trata-se apenas uma curiosidade.A psicodelia no cinema não alcançou a mesma importância da que conseguiu na música (Pink Floyd, Jimmi Hendrix, etc.).Daí que, hoje esses filmes são como aquelas roupas de brchó, coloridas mas datadas.Os hippies viraram piada e as drogas não servem mais a pretensos exercícios de libertação da mente.E o único final feliz foi para Jack Nicholson que se tornou um astro, e "Psych Out", uma mera nota de rodapé na sua carreira.
Realizado em 1968, "Psych Out" traz jovens atores que se notabilizariam por participações em filmes desse estilo: Jack Nicholson, Susan Strassberg, Bruce Dern.Na história, uma jovem rica (Strasberg) submerge no submundo Haight-Ashbury (o bairro dos hippies e freaks de São ,Francisco) atrás do irmão desaparecido. Lá encontra três amigos que formam uma banda de rock dispostos a ajudá-la na missão.A jovem começa um caso de amor com um deles (Nicholson), e assim, entre um ácido e outro eles seguem à procura do irmão da garota, que ressurge perambulando pelas ruas como uma espécie de guru, um profeta do apocalipse, de cabelos longos e barba totalmente surtado.
Enfim, o interesse por filmes assim, na época, vinha obviamente dos jovens que faziam parte daquela cultura e queria ver a si mesmo retratados na tela grande.Hoje em dia trata-se apenas uma curiosidade.A psicodelia no cinema não alcançou a mesma importância da que conseguiu na música (Pink Floyd, Jimmi Hendrix, etc.).Daí que, hoje esses filmes são como aquelas roupas de brchó, coloridas mas datadas.Os hippies viraram piada e as drogas não servem mais a pretensos exercícios de libertação da mente.E o único final feliz foi para Jack Nicholson que se tornou um astro, e "Psych Out", uma mera nota de rodapé na sua carreira.
Uma Jovem Tão Bela Como Eu - DVD
A primeira vez que assisti a "Uma Jovem Tão Bela Como Eu", de François Truffaut, foi numa daquelas sessões da madrugada da TV Globo, e o filme se tornou um dos mmeus favoritos, não só pela história da espevitada Camille Bliss como também por sua intérprete, Bernadette Lafont.
A trama toda gira em torno das memórias de Camille, ditadas na penitenciária em que cumpre pena por assassinato, ao professor de sociologia Stanislas Previne (Andre Dussolier).O pretexto da entrevista é uma tese sobre mentes criminosas que ele está escrevendo.Mas a trajetória da moça é menos criminosa do que libidinosa.Em vez de ir de crime em crime, descobrimos que ela foi mais de cama em cama, sempre enganando os homens que passaram por sua vida, transformando-os em meros joguetes para conseguir o que queria(geralmente sustento), e sempre em troca de favores sexuais.Ou seja, de uma forma ou de outra ela saía ganhando.
Entre os pobres coitados estão um rapaz mimado e abobado, ainda morando com a mãe, um cantor cafona de boate de beira de estrada, um advogado achacador, um desratizador cristão-fanático e por último o próprio professor Previne, que, sem preceber, acaba enredado na teia da sagaz anti-heroína.
Bernadette Lafont tem uma atuação burlesca, farsesca como o tom da história toda, que muitas vezes lembra as comédias americanas do cinema mudo.Nada ali tem alguma correlação com o senso-comum, trata-se de uma "screwball comedy" (comédia ligeira e louca) com um final totalmente imprevisível.
Há de se dar um destaque especial a Charles Denner, no papel do desratizador.Com sua empáfia moralista e ridícula, que profere discursos em frente a bancas de jornais contra a exposição de revistas eróticas mas que deseja sexualmente Camille como todos os outros.
Em 1978, Truffaut já havia abandonado de vez os preceitos da Nouvelle Vague mas melhor seria dizer que incorporara outros modos de fazer cinema aos preceitos da NV.Exemplo, no filme há utilização de som direto, locações mas também de artificalismos legados pelo cinema americano.
A trama toda gira em torno das memórias de Camille, ditadas na penitenciária em que cumpre pena por assassinato, ao professor de sociologia Stanislas Previne (Andre Dussolier).O pretexto da entrevista é uma tese sobre mentes criminosas que ele está escrevendo.Mas a trajetória da moça é menos criminosa do que libidinosa.Em vez de ir de crime em crime, descobrimos que ela foi mais de cama em cama, sempre enganando os homens que passaram por sua vida, transformando-os em meros joguetes para conseguir o que queria(geralmente sustento), e sempre em troca de favores sexuais.Ou seja, de uma forma ou de outra ela saía ganhando.
Entre os pobres coitados estão um rapaz mimado e abobado, ainda morando com a mãe, um cantor cafona de boate de beira de estrada, um advogado achacador, um desratizador cristão-fanático e por último o próprio professor Previne, que, sem preceber, acaba enredado na teia da sagaz anti-heroína.
Bernadette Lafont tem uma atuação burlesca, farsesca como o tom da história toda, que muitas vezes lembra as comédias americanas do cinema mudo.Nada ali tem alguma correlação com o senso-comum, trata-se de uma "screwball comedy" (comédia ligeira e louca) com um final totalmente imprevisível.
Há de se dar um destaque especial a Charles Denner, no papel do desratizador.Com sua empáfia moralista e ridícula, que profere discursos em frente a bancas de jornais contra a exposição de revistas eróticas mas que deseja sexualmente Camille como todos os outros.
Em 1978, Truffaut já havia abandonado de vez os preceitos da Nouvelle Vague mas melhor seria dizer que incorporara outros modos de fazer cinema aos preceitos da NV.Exemplo, no filme há utilização de som direto, locações mas também de artificalismos legados pelo cinema americano.










