Tuesday, May 12, 2009

Uma bela pessoa

Nota-se uma certa nostalgia em "A Bela Junie" (La Belle Personne), de Christophe Honoré, especificamente da década de setenta.Sente-se isso já nos letreiros iniciais, como também na aparência dos jovens estudantes, com seus cabelos revoltos.Outro exemplo, durante uma sequência um aluno utiliza uma vitrola para apresentar uma gravação de Maria Callas durante a apresentação de um trabalho escolar, e não um CD player, o que seria de maior conformidade com os nossos dias.
A bela e nova aluna Junie ( a lindíssima Léa Seydoux) arrebata corações em seu novo colégio, tanto entre seus colegas, como o jovem Otto (Grgoire Leprince-Rinquet), quanto ao seu professor de italiano , o também jovem Nemours (Louis Garrel).Os dois disputarão a bela Junie de olhos de ressaca e corpo voluptuoso.E ela, se deixará levar, ao sabor dos afetos, não sem causar danos aos corações de seus dois apaixonados e também ao seu próprio.
No filme, o amor não triunfa, ou melhor, ele não nos conduz a um final feliz, seja para o triangulo hétero Junie-Otto-Nemours, seja para o homossexual, entre o primo de Junie e outros dois rapazes.
A plenitude do amor ocorre em meio à sua inconstância, que inevitavelmente leva à dor e à frustração.Amamos pessoas diferentes, por motivos diferentes, não havendo um atrativo que se sobreponha a outro, todos eles nos convidam a participar, e a nos perdermos no turbilhão da vida, como entre adolescentes em bando nos corredores de uma escola.Mas, se a beleza nos atrai, também nos engana.Por isso Junie acaba rejeitando seu professor depois da morte de Otto, suicidado.A paixão é fugaz mas deixa marcas profundas.


Monday, May 11, 2009

Balanço 2008

Os melhores:

A Fronteira da Alvorada - Philipe Garrel
Vicky Cristina Barcelona - Woody Allen
O Sonho de Cassandra - Woody Allen
A Alegria de Emma - Sven Taddicken
O Escafandro e a Borboleta - Julian Schnabel
Batman - O Cavaleiro as Trevas - Christopher Nolan
Homem de Ferro - Jon Favreau
Nome Próprio - Murilo Salles
Meu Nome Não é Johnny - Mauro Lima
Queime Depois de Ler - Joel e Ethan Cohen
Gomorra - Matteo Garrone
Uma Garota Dividida em Dois - Claude Chabrol
Canções de Amor - Christophe Honoré
Loki - Paulo Henrique Fontenelle
Pan-Cinema Permanente - Carlos Nader
Ninguém Sabe o Duro Que Dei - Claudio Manoel
Paulo Gracindo - O Bem-Amado - Gracindo Jr.
Encarnação do Demônio - José Mojica Marins
Irina Palm - Sam Garbarski
Joy Division - Grant Gee

Poderiam estar entre os melhores:

Linha de Passe - Walter Salles
Ensaio Sobre a Cegueira - Fernando Meirelles
Feliz Natal - Selton Mello
Nossa Vida Não Cabe Num Opala - Reinaldo Pinheiro

Estão longe de estar entre os melhores:

Antes Que o Diabo Saiba que Você Está Morto - Sidney Lumet
Indiana Jones e a Caveira de Cristal - Steven Spielberg
Rebobine, Por Favor - Michel Gondry
Fatal - Isabel Coixet

Valeu a pena esperar pra ver:

Noite de Estréia - John Cassavettes
Made in U.S.A. - Jean-Luc Godard
Sonho de Amor - Charles Vidor
A Camareira do Titanic - Bigas Luna
Verão Assassino - Jean Becker
Vampire Blues - Jess Franco
A Regra do Jogo - Jean Renoir
A Noite - Michelangelo Antonioni
La Luna - Bernardo Bertolucci
1900 - Bernardo Bertolucci
São Bernardo - Leon Hirshman







Adiante, por favor

O ponto de partida de "Rebobine, Por Favor", de Michel Gondry, até que é interessante.Numa anacrônica locadora exclusivamente de fitas VHS, o esforçado Mike (Mos Def), depois de imcumbido por seu patrão Elroy (Danny Glover) de cuidar do estabelecimento na sua ausência, se vê em apuros quando descobre que seu colega abilolado Jerry (Jack Black), após uma mal-sucedida tentativa de atentado contra a rede elétrica que abastece a cidade, se magnetiza o bastante para desmagnetizar e apagar o conteúdo de todas as fitas de vídeo da locadora.Solução encontrada pelos dois: refazer os filmes, condensando-os em versões toscas de vinte minutos.
O que serviu para enrolar momentaneamente uma cliente incauta (a constrangedora Mia Farrow), acaba se tornando o grande sucesso do bairro, logo tomando toda a cidade, fazendo com que Mike e Jerry mal consigam dar conta de todos os pedidos por suas versões pessoais dos clássicos do cinema.
Pois bem, como já foi dito, nada mais anacrônico do que uma locadora que só trabalha com VHS, quando o suporte digital caiu há tempos no gosto popular.Da mesma forma, nada mais estranho do que pessoas que insistem em alugar apenas filmes em VHS.Note-se que na tal locadora, a Be Kind Rewind, só vemos aparelhos em desuso, ultrapassados, como uma caixa registradora que nem mesmo seu funcionário sabe como funciona.O próprio prédio está condenado e sofre pressões dos órgãos municipais para que seja fechado, pois a sua existência ali atravanca o processo "natural" de modernização urbana.E é isso que Elroy e seu pupilo Mike querem evitar, além de manter viva a memória de um tal músico de jazz que teria nascido naquele local.
O que encontramos aqui é a luta entre o novo e o velho, a paixão pela arte, simbolizada pelo analógico, contra a frieza representada pelo meio digital (se bem que a digitalização foi responsável pelo resgate e restauração de vários filmes que se perderiam sem o auxílio dessa tecnologia, mas, enfim).
O filme, então, propõe que o importante não são os filmes, mas a lembrança que deles nos fica.Por isso, ninguém se importa em assistir a uma versão de vinte minutos de um filme já visto como "Os Caça-Fantasmas", por exemplo, contanto que contenha aquela determinada sequência predileta.Seguindo essa premissa, "Psicose", de Hitchcock, poderia ser reduzido só à sequência do assassinato de Janet Leigh no chuveiro, "Casablanca", apenas à parte final na pista do aeroporto, "Indiana Jones" à perseguição entre carrinhos dentro da mina, etc.
Por isso os espectadores não se importam e até gostam de participar dessas novas versões e de verem-se ali na tela, caracterizados como seus personagens favoritos.
Singelo, não? Acontece que quando não se dá a devida importância à arte, e às escolhas do artista, está dado o primeiro passo rumo à sua extinção.Nem todos tem o talento de um Orson Welles, ou de um John Ford, e relativizando o trabalhos desses artistas apenas para valorizar certos momentos impressos na nossa memória estamos sendo injustos e mesquinhos.
O que começou com uma boa premissa acaba como um pastiche banal, com piadinhas que não são dignas nem de um programa dos Trapalhões.

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