Monday, August 28, 2006

Problemas & Confusões


A maioria dos papéis interpretados por Marlon Brando foram importantes não só para a sua carreira mas também para a história do cinema.E o primeiro do tipo foi o motoqueiro Johnny de “The Wild One”, filme de 1953.
Nele Brando teve sua imagem identificada à rebeldia, ao desajustamento na sociedade conservadora , à recusa a seguir regras que não faziam sentido algum.E é ironico como essa característica do personagem em poucos anos aconteceria com o próprio Brando na vida real.Indo mais longe, outros personagens também marcantes (Don Corleone, o amante de Last Tango in Paris, Coronel Kurtz) sofriam do mesmo mal, a incapacidade de aceitar as regras.

Uma cidadezinha da Califórnia é invadida por um bando de motoqueiros ávidos por arruaças e confusões, quebrando a rotina dos pacatos cidadãos.Com Johnny à frente eles adentram o lugar em meio à uma competição de motociclismo.Ali mesmo arranjam a primeira discórdia e Johnny só de pirraça surrupia o troféu reservado ao segundo lugar na corrida.Ele o carregará ao longo do filme como uma espécie de amuleto.

Na cidadezinha vive também Kathy (Mary Murphy)a linda jovem filha do delegado omisso, que amarga uma exisitencia rotineira e sem perspectivas.É claro que Brando se interessará por ela e ela por ele.Mas Kathy não se entrega a Brando, não se sente segura, não sabe se ele,afinal de contas, é bom ou mal ou se seria certo ou errado o que seu desejo lhe diz para fazer.
A maioria doas confusões em que a gangue se mete são involuntárias, pequenos mal-entendidos que crescem até que se tranformam numa revolta raivosa dos cidadãos da cidade contra a gangue de Johnny.

Lá também Johnny reencontrará Chino (o incrível Lee Marvin), um velho companheiro de gangue que agora virou seu inimigo.A cena em que Chino desafia Johnny para uma briga na frente de toda a gangue e da população da cidade é antológica.Aliás, a história lembra muito a estrutura dos velhos westerns: o forasteiro que chega ao vilarejo e muda a rotina de todos.

Ao final, depois de ter sido inocentado da acusação de assassinato de um velho vendedor, pelo depoimento da apaixonada e angustiada Kathy, Johnny e sua trupe se veem obrigados a deixar a cidade e assim o fazem,em busca de outra onde eles logo chegarão, provavelmente encontrando outra”Kathy” e outros problemas e confusões.

Wednesday, August 23, 2006

O Que é aquilo no Céu?


Não é um pássaro, não é um avião, não é Christopher Reeve mas ainda assim é o Super-Homem!Depois de vinte anos longe da tela grande o grande herói volta em grande estilo e agradando.O público e a crítica americanos adoraram e o filme é bom mesmo, se bem que ainda prefiro o primeiro.
Se naquela época o herói mudava o curso da história por causa da mulher, hoje quem muda o curso para salvá-lo é ela.Sinal de fragilidade do macho-moderno?I don`t think so.
O mundo consegue viver sem o Super-Homem?E o Super-Homem, consegue viver sem o mundo?Sem Lois Lane?

Depois de uma ausencia de cinco anos em que Kar-el saiu de cena tentando “se encontrar”, ele volta a Metrópolis e encontra as coisas um pouquinho diferentes.Sua amada Lois agora é uma mulher casada e com um filho pequeno, provavelmente cinco anos, o tempo exato em que Kar-el ficou fora de circulação.

A ausencia do Homem de Aço também proporcionou a soltura do seu maior rival Lex Luthor, que agora sem a srta. Teschmacher e sem seu ajudante Otis, arquiteta mais um plano mirabolante para dominar o mundo e acabar com o Super.Mas e se Luthor conseguir o seu perverso intento, quem poderá nos defender?O Chapolin Colorado já se aposentou.

Incrível como durante os créditos iniciais ouvindo o eterno tema composto por John Williams (o genio) me bateu uma nostalgia, um flasback, eu me senti como se estivesse sendo transportado no tempo até o final da década de 70 quando dentro de um outro cinema assisti, extasiado, ao filme com Reeve, Hackman e Kidder e aqules letreiros que vinham em direção à gente.

Mas, de volta para o futuro, o que posso dizer sobre o filme é: competente, interessante, empolgante, que Brandon Routh convence como o novo Superman(e veremos como admistra sua imagem daqui pra frente, pois Reeve penou pra conseguir outros papéis) que Kate Bosworth funciona bem como Lois Lane mas eu ainda prefiro Teri Hatcher (que viveu a personagem no seriado de TV “As Aventuras de Lois & Clark”), a atual esposa desesperada favorita da América.Margo Kidder também tinha mais carisma do que a Lois atual.
Mas bom mesmo foi ver o grande Frank Langella novamente.Frank estrelou alguns filmes memoráveis como o Drácula de John Badham.Agora ele é Perry White, o chefão do Daily Planet (o Planeta Diário, sem Hubert e Reinaldo).

Agora um parágrafo especial para Kevin Spacey, o abominávelmente charmoso Lex Luthor.Kevin supera Gene Hackman, e olhem que escrevo isto com o coração sangrando.O Luthor de Spacey equivale-se ao Curinga de Jack Nicholson.Nicholson revitalizou a imagem do vilão e agora sempre que pensamos no Curinga lembramos de Jack Nicholson interpretando o Curinga.O mesmo acontecerá com o Luthor de Kevin Spacey,o ator que não se transforma, faz com que o personagem se transforme e adapte a ele.

Os produtores mantiveram a escolha por novatos nos papéis principais do herói e de Lois Lane assim como foi feito nos anos 70.O diretor Bryan Singer dirigiu os dois X-Men e já tem agendada a sequencia das novas aventuras do Superman.Certamente vai haver um Superman re-return, ou Superman Reloaded, ou Replies, ou Strikes back, whatever.O negócio é continuar “para o alto e avante”!

Monday, August 21, 2006

Eu Só Queria Entender!


Quando comecei a assistir à Syriana tive a impressão de que tratava-se de um filme diferente, cuja abordagem diferiria dos demais longas americanos ditos “sérios “,como Munique, por exemplo.Percebi a história que se delineava, a fusão de duas grandes companias de petróleo, a ameaça de corte de funcionários, o papel do governo americano na coisa toda, a atuação do personagem de George Clooney, que num momento se reúne com secretários do governo e em outro acerta eliminações de outras pessoas.Enfim, um thriller político denso, tratando de um assunto atual, num local crítico (Oriente Médio), com elementos que tem tudo a ver com o noticiário das TVs e jornais do dia-a-dia.Além do que havia dado um Oscar a George Clooney, portanto não era uma produção banal qualquer.

Acontece que aos poucos fui perdendo o fio da meada, não entendendo certos meandros da história, as situações foram ficando cada vez mais nebulosas e sem explicação, o tom de voz balbuciante de todos os personagens começou a me impacientar e logo me deu aquela vontade de acelerar o filme pois já estava de saco cheio daquilo tudo.

A impressão que tenho hoje é a de ter visto um filme sem diálogos.Toda a comunicação entre os personagens parecia vir apenas do olhar entre eles,ou de gestos, as frases são monossilábicas, há menção a personagens que até agora eu não sei quem são (o tal de Dalton, por exemplo, quem é esse cara?).Por que o pai do tal contador de óculos e bigode vive sentado na porta de casa?Por que os dois não se dão bem?O personagem do Matt Damon estava à serviço de quem?Queria prejudicar ou ajudar os árabes?O George Clooney trabalhava pra quem?Pro governo ou pra uma das empresas?Ou para os dois?E por que de repente ele passou a ser perseguido?Por que o William Hurt apareceu do nada como uma espécie de conselheiro do Clooney?Quem era ele?De onde eles se conheciam?

Se alguém me perguntar do que trata Syriana, eu simplesmente vou dizer : não sei.Não entendi nada.Ou eu sou muito burro ou esse filme não soube passar direito sua informação.E olha que eu adoro thrillers políticos, um dos meus favoritos é (obviamente) Todos Os Homens do Presidente, mas também adorei Z, Marathon Man, Cinco Dias do Condor, O Dia do Chacal e mais uns outros.

Talvez seja mesmo a primeira opção pois a crítica foi só elogios ao filme e Clooney acabou ganhando o Oscar de coadjuvante.Aliás, não sei por que pois o personagem dele é essencial no filme todo.Se bem que não acho que tenha feito um grande trabalho.Certamente ganhou só por ter engordado pra fazer o papel.Americanos adoram esse tipo de coisa que pra mim só teve relevancia quando foi feito por Robert De Niro em Touro Indomável e Os Intocáveis.

Agora, pra não dizerem que eu não aprecio os filmes “difíceis”.No dia seguinte assisti à 21 Gramas, do Alejandro Iñarritu, na TV Record.Quando percebi a montagem descontínua , que misturava passado, presente e futuro dos personagens pensei: ih, lá vem mais um daqueles filmes metidos a besta, que deixam a história em segundo plano em prol de pirotecnias de edição.
Mas aos poucos fui sendo conquistado pelas atuações sensacionais de Sean Penn, Naomi Watts e Benicio Del Toro.E ao longo do filme ficou claro como a forma não ortodoxa de montagem não prejudicou a compreensão da trama e de toda a tensão nela envolvida.

Em rápidas pinceladas: o personagem de Sean Penn precisa de um transplante de coração.Depois de uma longa espera e com ele já agonizando, o hospital consegue um doador.É o órgão de um homem que havia sido atropelado pelo personagem de Del Toro.Naomi Watts é a mulher desse tal atropelado, que, claro, enviúva.Com o tempo Penn começa a sentir um desejo de conhecer seu doador e inevitavelmente chega até a linda e dasatinada Naomi, que por conta da tragédia havia voltado a beber e usar drogas.Os dois se apaixonam, Penn larga a esposa que havia iniciado um processo de inseminação artificial e fica com a loira Watts.Juntos acabam descobrindo o paradeiro de Del Toro que havia se entregado à polícia e pago a pena de prisão, mas se afastou da família após ser solto por não aguentar a culpa pelo ocorrido.Também se afunda no álcool e no sentimento de ter sido abandonado por Deus, ele era um católico fervoroso.Watts convence Penn de que Del Toro deve morrer, ela não conseguiu esquecer o marido e os filhos mortos no acidente.

O Filme é de 2003 e serve de exemplo de como é possível fazer um cinema inventivo, denso mas compreensível a gente de mentalidade mediana como eu, por exemplo.

Monday, August 14, 2006

A Perversa


É difícil escrever sobre um grande clássico do cinema como All About Eve.O que já não foi analisado nele antes?Qual aspecto ainda permanece obscuro?Que elogio novo pode-se fazer a uma obra-prima.
Assistindo-o fiquei pensando: um filme desses,com a sutilieza dos diálogos, das situações, a sofisticação da história toda,mesmo assim conseguiu ser popular e ganhar o Oscar de melhor filme de 1950.Numa época como a nossa uma produção assim não conseguiria nem mesmo sair do papel,quanto mais ganhar um Oscar.
Aliás, o título em portugues é totalmente equivocado; “A Malvada”.No DVD a foto em destaque é de Bette Davis, portanto, denota-se que seja ela a malvada da história.
Mas acontece que as coisas não são bem assim.Davis interpreta a temperamental e consagrada atriz de teatro Margo Channing.Margo não é má,num sentido em que possa prejudicar alguém, o máximo que faz é destratar seus fãs,é apenas mal-humorada.Um dia ela conhece Eve Harrington(Anne Baxter).Eve aparentemente seria uma dessas fãs, mas logo se mostra mais fanática que as outras pois não só costuma assistir às peças protagonizadas por Margo mas assiste às mesmas várias vezes.Sem falar que logo quando trava suas primeiras relações com a atriz,faz questão de agradá-la,mostrando-se solícita, sempre disposta a dar uma mãozinha.Logo Eve torna-se assessora de Margo e conquista a todos com as histórias de seu passado difícil em meio às agruras da pobreza.
Aos poucos Eve começa agir e a criar situações que a beneficiem e sorrateiramente o espaço que ocupa de leal serviçal da grande atriz começa a se ampliar e logo ela invadirá o espaço dessa atriz.Primeiro,dá em cima do noivo dela que também é diretor de suas peças.Depois assedia o autor tetral para que lhe entregue um papel que havia sido criado para Margo,o que ,aliás,consegue.E por meio de pequenas artimanhas e algumas mentiras manipula uma influente crítico,Addison DeWitt(George Sanders,soberbo) cujos elogios servirão de lastro à sua carreira.
Tudo isso sem perder a ternura, a delicadeza e o ar angelical.Logo ve-se quem seria a verdadeira “Malvada” do filme.Um título mais preciso talvez fosse “A Perversa” ou “A Dissimulada”.Ao final Eve encontra-se sozinha apesar do sucesso, desprezada por todos os que conhecem suas falcatruas.Mas sua punição virá logo pois um belo dia ela também encontra uma jovem disposta a lhe servir com toda a dedicação e denodo visando,claro, o mesmo objetivo que ela teve quando se aproximou de Margo.
Enfim, All About Eve é um dos poucos filmes que tratam do universo do teatro e está para esta forma de arte assim como The Bad And The Beautiful está para o cinema.Bons tempos em que os bons filmes vingavam.

Saturday, August 12, 2006

Uma Matiné de Um Milhão de Dólares


O filme Piratas do Caribe 2 foi recebido com má vontade pela crítica brasileira mas com entusiasmo pelo público(aqui e nos EUA onde liderou as bilhetrias).E eu não tenho nada a objetar contra o filme dirigido por Gore Verbinski e estrelado pelo novo queridinho da América Johnny Depp, Orlando Bloom e a maravilhosa Keira Knightley.
Não tenho nada a objetar pois trata-se de puro e inofensivo entretenimento, simplesmente um filme de aventura como Hollywood sempre fez e sempre fará.Uma matiné de um milhão de dólares.

Confesso que no primeiro episódio, o de 2003, fui ao cinema praparado pra não gostar do que veria.Mas aos poucos fui me rendendo aos encantos de Jack Sparrow e seus trejeitos ambíguos(assim como seu caráter), à beleza e agudez de espírito de Elizabeth(Keira,o queixo mais lindo do cinema) e aos efeitos especiais que não surgiam para suplantar todos os outros aspectos artísticos da película.Os efeitos ali eram um complemento à história e não uma mera pirotecnia como muito se encontra por aí.
E afortunadamente isso ocorre também nesta continuação.Agora os monstros-fantasmas estão bem mais horripilantes e nojentos mas Keira também está mais encantadora(desculpem a obssessão).

Bem, resumindo a história é a seguinte.A linda Elizabeth e seu amado William Turner (Orlando Bloom) foram presos por terem ajudado Sparrow a fugir no primeiro filme.Portanto seriam condenados à forca.O único modo de Turner salvar o lindo pescocinho de sua linda cara-metade - e o seu próprio - era trazer a bússola do famoso pirata às mãos de um sujeito lá que eu não sei direito quem era mas que exercia muita autoridade sobre os dois.
Trato feito, Turner parte atrás de Jack que por sua vez tenta deseperadamente se ver livre de uma maldição que o levará a ser devorado por um terrível monstro marítimo por conta de uma antiga dívida com um outro pirata-monstro chamado Davy Jones que na verdade é uma mistura de polvo com caranguejo gigante(mas que apesar da aparencia gosta de música e fala num linguajar de alto nível).Jack tinha um trato com Davy Jones de devolver a ele um pequeno baú que continha o seu coração.Só que quem conseguir esse, digamos, souvenir, controlará não só o perigoso Polvo-pirata como também a terrível criatura que obedece ao seu comando,o destruidor de embarcações Kraken,portanto há mais gente atrás desse baú.

A ambiguidade de caráter é algo que aparece com destaque não só na conduta de Jack Sparrow como também na da mocinha Elizabeth.Em certo momento ela se deixa seduzir por Jack e corresponde a esse assédio esquecendo de seu noivo Turner.Chega até a ficar levemente frustrada pelo beijo entre os dois não haver acontecido na primeira vez.E mais tarde quando beija Sparrow é para distrair a sua atenção enquanto o algema numa coluna do navio para que seja devorado e destruído pelo monstro Kraken.E isso convenhamos não é bem o comportamento de uma "mocinha".

Enfim, foram 150 minutos que passaram sem maiores dificuldades ou aborrecimentos.E há ainda aquele final aberto que anuncia a continuação que vira no ano que vem, e com Keith Richards no papel de pai de Jack(!!!).
Se o mundo não tiver acabado até lá,a gente assiste.

Morda a Bala

Em 1975 os faroestes já estavam fora de moda no cinema americano.Depois de subversões ao tema como Midnight Cowboy e Butch Cassidy & Sundance Kid, se alguém ainda quisesse realizar um western deveria agregar algum elemento novo ou no mínimo incomum a eles.
No caso de Bite The Bullet, filme de Richard Brooks que conta a história de uma espécie de enduro em quatro patas disputado por vários cavaleiros, o elemento incomum é a falta da dualidade mocinho x bandido que se ve em quase todos os filmes do genero.E ao longo da história aqueles que no começo aparecem como maus e antipáticos aos poucos afetados pela dureza do deserto e dos obstáculos que devem enfrentar durante o percurso da corrida, mostram-se mais humanos e ganham a empatia do público.Entre eles encontra-se o cara-durão,o jovem insolente, o profissional que apenas cumpre sua tarefa, o índio, e a donzela audaciosa.Todos atrás do premio de $2.000.
O cara-durão é James Coburn, a jovem audaciosa Candice Bergen, o jovem insolente,Jan-Michael Vincent.Além de Gene Hackman,como o profissional que aparenta frieza mas no fundo tem bom coração.Hackman vivia seu momento mais profícuo na carreira.Havia trabalhado em ótimos filmes (The Conversation, Bonnie & Clyde, The French Connection, que lhe deu um Oscar)e seu nome se consolidaria durante a década em grandes produções ( Superman, O Destino do Poseidon).
Apesar de ser um bom filme não se tornou um clássico nem mesmo um cult, tanto que eu nunca havia ouvido falar sobre ele antes.Portanto provavelmente não foi uma grande bilheteria.Mas é um filme com um roteiro bem armado.E algo que chama a atenção é o amor aos animais dedicado pelo personagem de Hackman,que surge no filme com a missão de entregar no local do início da corrida o cavalo milionário a seu contratador.Lá ele encontra Coburn, um velho conhecido, que lhe pergunta por que não se inscreve na corrida.Hackman, defensor dos animais, não ve a menor graça nesse tipo de disputa mas depois aceita o desafio “só pelo dinheiro”. O percurso é longo e tortuoso.Eles tem que atravessar o deserto em condições precaríssimas e aos poucos os animais vão sentindo o esforço e um deles perece no meio do caminho.
Uma das competidoras é Candice Bergen, lindíssima(se não me engano teve um affair no Brasil com Tarso de Castro).No começo seu personagem aparenta ser somente uma mulher audaciosa desafiando o mundo machista dos caubóis(afinal o filme é dos anos 70).Mas depois ve-se que havia uma outra motivação para que ela participasse da corrida.Durante o percurso eles passariam por local onde presos construíam uma estrada de ferro e um desses condenados era o amante de Bergen que apenas esperava a chegada dela para que pusessem em prática o plano de libertá-lo.
No final da corrida (e do filme) Hackman e Coburn, exaustos e em frangalhos praticamente se arrastam até a linha de chegada, alcançando-a juntos fazendo assim o final feliz deste faroeste incomum e obscuro dos anos setenta.

Um Homem Muito Especial

Assisti ontem ao filme Teorema,de Pier Paolo Pasolini,1968, com Terence Stamp no papel do sedutor que com apenas um olhar faz com que todos os membros de uma família queiram servi-lo e adorá-lo incondicionalmente(pra quem não está ligando o nome à pessoa,Stamp mais tarde faria o General Zod em Superman II).É um filme difícil.Começa com um sujeito na porta de uma fábrica entrevistando operários.Pergunta-lhes se não seria o caso de uma vitória da burguesia sobre o proletariado se um dia estes conseguissem condições financeiras para tornarem-se do grupo daqueles,incorporando também seus valores.Depois surge a família.As imagens são em preto e branco.Eles não conversam entre si e o filme vira uma paródia do cinema mudo.Na mesa do jantar chega o telegrama que apenas avisa: "Chego amanhã".Na sequencia seguinte voltam as cores e o visitante,sobre quem não nos é dada nenhuma informação, já está entre eles e todos riem e conversam.Está ocorrendo uma pequena festa.Aos poucos vemos como a família, fascinada pelo visitante, cujo poder inexplicável e irresistível os faz querer morrer se não tem a sua atenção(como no caso da empregada) vão se entregando sexualmente a ele,mãe,filha e filho adolescentes, e até o pai sente-se atraído depois de ter sido curado pelo hóspede de uma doença que o prostrava na cama.Mas o sujeito não se aproveita da situação e parece até atender aos anseios da família com resignação como se já esperasse aquilo.Ele ao mesmo tempo que os liberta ,e realiza seus desejos, os aprisiona pois todos passam a viver em função dele.E quando recebe um chamado que o levará embora da casa cada membro enlouquece e se desnorteia totalmente, como se houvessem perdido a razão de viver.Quem seria esse homem?Um demonio ou um anjo?Alguém que traz a cura de todos os males ou aquele que confundirá ainda mais a cabeça de todos?O filme é quase todo sem diálogos.Tudo se passa e se decide na mente dos personagens.Sua luta interior só vem à tona no desespero pela perda do visitante,quando a angústia é tanta que leva ao desvario.Teorema não chega a ser uma "obra-prima"como diz a embalagem do DVD mas é no mínimo instigante.E Pasolini é um grande cineasta.Gostei muito de outros filmes seus como Accatone, Canterbury Tales (o melhor) e As Mil e Uma Noites.Ao contrário dos ouros tres este é um filme a ser revisto para uma melhor apreciação e compreensão..

De Olhos Bem Abertos

Acabei de assistir ao filme Munique, de Steven Spielberg e devo confessar que cochilei em pelo menos 1/3 dele.Não que seja ruim, é até um bom filme mas ao mesmo tempo me provoca uma sensação de que o cinema é uma arte morta ou um arte-zumbi, que morreu e não sabe.Pra realizar uma produção como essa, Spielberg logicamente buscou inspiração em outros filmes políticos(Munique trata do incidente ocorrido na Olimpíada de 1972 em que atletas israelenses foram sequestrados e mortos por membros da OLP.Ou melhor, esse é o ponto de partida da história, o que move o filme são as consequencias do ocorrido quando o Mossad, o serviço secreto israelense recruta um punhado de homens para matar os responsáveis pelo ação palestina), provavelmente títulos de Costa-Gavras,Fred Zinnemann(O Dia do Chacal), John Schlesinger(Marathon Man) - e curiosamente o filme além de se passar na década de 70 também tem um que dos filmes da época.Isso tanto pode ser considerado um de seus charmes quanto pode também ser visto como algo que caracteriza o quanto o cinema contemporaneo precisa do passado para poder continuar existindo.Ou seja (e pode-se aplicar o mesmo à música pop atual),numa época em que todos os grandes filmes já foram feitos para se tentar fazer um grande filme é preciso recorrer ao passado.O cinema - e não apenas o americano - como um todo, seus roteiros, situações , estilos visuais tem se repetido ao longo desses anos e fica cada vez mais difícil encontrar originalidade.Não é à toa que certos diretores agora buscam inspiração nos quadrinhos ( Robert Rodriguez e Quentin Tarantino,por exemplo, cujo Kill Bill pode ser colocado na fileira das raras produções que conseguem se diferenciar não só do que está sendo feito atualmente quanto do que já foi feito no passado,sendo que quando Tarantino cita outros filmes quase sempre o faz parodiando-os e não apoiando-se neles como numa tábua de salvação).O que mais me chamou a atenção em Munique foi sua fotografia, belíssima, que como já falei lembra filmes setentistas ambientados na Europa(também há asfalto molhado como se houvesse acabado de chover).Enfim, não foi um grande sucesso de bilheteria, não levou nenhum grande premio mas também não foi um retumbante fracasso.Talvez seja o caso de reve-lo daqui a uns dez anos pra ver como se apresenta.E talvez eu possa estar de olhos mais abertos.

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