Monday, May 28, 2007
Onde os Sonhos Terminam
“Baixio das Bestas” é um filme desconcertante.E o é de uma forma pouco vista no cinema brasileiro dos últimos anos.Sua temática forte e pungente não é pra qualquer um.Assim como não seria qualquer diretor com coragem suficiente para realizá-lo.E Cláudio Assis tem esse perfil, o do “outsider”, aquele que esta à margem, o que não faz parte da “tchurma”, que vem para incomodar, para falar daquilo que todos gostariam de esquecer ou fingir que não existe.Chegamos ao Baixio das Bestas, o lugar aonde os sonhos terminam (e alguns não chegam sequer a serem sonhados).O filme de Assis é o contrário de “Ópaíó”.Se neste a alegria “esfuziante” do carnaval dos caríssimos abadas na festa mercantilizada promove a satisfação dos sulistas que sobem até o nordeste para quatro dias de ilusão de liberdade, no “Baixio” o carnaval popular, barulhento e precário não redime a miserável existência de ninguém.E nem mesmo a cachaça os faz esquecer o que são, a miséria em que estão e a aridez do lugar onde vivem.
Ali as prostitutas, os parasitas, os drogados, os velhos moralistas são todos farinha do mesmo saco.Todos vítimas e cúmplices, sofrendo os piores infortúnios e perpetuando-os, sendo também agentes do mesmo mal de que são vítimas.
O velho moralista que zela pelo nome e pela pureza da neta adolescente é o mesmo que a exibe nua para os caminhoneiros em troca de pagamento.O queridinho-da-mamãe, mimado e cheio de preguiça, é o mesmo arruaceiro que se entope de drogas e participa de orgias violentas no bordel da cidade.E seu pior companheiro, o descontrolado líder nas atrocidades, teve um passado de estudos, usa “palavras difíceis”, e debaixo de todo o seu atual niilismo provavelmente jaz enterrado algum valor que se perdeu ou foi por outros posto a perder.
Ninguém ali se questiona se o que faz é certo ou não, ali não existem dúvidas, nem outro caminho. Segue-se em frente pois não há alternativas.Eles são o que a vida (ou o destino, ou Deus) quis que eles se tornassem.Não há nada a encontrar ou ambição a seguir.O Baixio é o fim-da-linha.Mas não terá também a linha começado ali?
Eu Já Fui o Homem-Aranha
Devo confessar que já quis ser o Homem-Aranha.Uma das razões do sucesso do herói criado por Stan Lee e Steve Ditko na década de 60 era que seu alter-ego, Peter Parker, sofria os mesmos problemas que os adolescentes comuns.A necessidade de se sustentar, os amores não correspondidos, o azar “crônico”, a rivalidade com o valentão da classe.Parker era como um espelho para muitos que o acompanhavam em suas desventuras e nos fantásticos feitos quando dentro do uniforme vermelho e azul.E provavelmente o diretor Sam Raimi, responsável pela condução e pelo roteiro deste terceiro filme sobre o aracnídeo, também tenha se identificado com ele haja vista a forma como transportou o enredo para tela grande, traduzindo acuradamente a linguagem dos quadrinhos e mantendo as características principais do personagem – o bom-humor, por exemplo.
Peter Parker tem seus poderes especiais mas isso não o livra da falibilidade humana.E agora ele acaba deixando que o sucesso e o reconhecimento pela população de Nova York lhe subam à cabeça, a ponto de nem notar o quanto sua amada Mary Jane Watson(Kirsten Dunst) passa por um péssimo momento.Sua carreira de atriz vai de mal a pior, e ainda por cima, ela tem que encarar a concorrência da loiraça Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard) que acaba se aproximando de Parker através de uma série de encontros coincidentes.O herói, agora cheio de si, de vaidoso passa a arrogante e daí a violento, depois que começa a usar um novo uniforme – negro, feito de um tecido alienígena que possui vida própria e acaba controlando seus atos e pensamentos.
E afinal, esse estranho ser alienígena (que se transformará no vilão Venon) vai ser o grande vilão da história, já que os outros dois, o Homem-Areia e o novo Duende Verde podem praticar o mal mas no fundo são boas pessoas.O primeiro, apesar de cometer atos condenáveis já foi um pai de família dedicado que só entrou no mundo do crime para arranjar dinheiro suficiente para pagar os cuidados médicos de sua filha pequena.E o segundo, Harry Osbourne, o filho do primeiro Duende, Norman Osbourne, é movido pela vingança à morte do pai, que ele acha ter sido provocada pelo Aranha.Mas quando percebe que cometeu um erro, tenta remediar todo o mal que causou, ajudando o super-herói contra a ameaça maior de Venon.
Bem, os filmes de aventura, todos sabem, são a especialidade de Hollywood, já na época em que não existiam os efeitos especiais que fizeram a fama das produções americanas ao redor do mundo.Mas alguns realizadores destacam-se mais do que outros.E conseguem imprimir uma marca pessoal que distingue seu trabalho dos demais filmes de ação cheios de efeitos especiais.E Sam Raimi é um exemplo disso.Raimi consegue dosar perfeitamente as seqüências de ação com as de drama ou comédia.Seu roteiro para o HA3 é impecável e por mais que desconfiemos como a história vai acabar ela nunca chega a seu final de uma forma óbvia.Ou seja, Raimi sempre nos reserva uma surpresa ou outra até que cheguemos ao desfecho.
Não é preciso ser criança para se deixar arrebatar pelo destino do super-herói e pelas agruras por que passa.Ou antes, o filme desperta em nós resquícios dessa infância, trazendo a lembrança de uma época que a muitos é tão cara.Quando éramos movidos pela imaginação e pela crença de que se um personagem de quadrinhos depois de passar por tantos “perrengues”, conseguia se safar no final, nós também conseguiríamos salvar o mundo.Ou pelo menos o gato da vizinha.
Mais Cinema à Italiana
“Vermelho Como o Céu” (Rosso Come Il Cielo), de Cristiano Bortone, é mais um exemplo da pujança do atual cinema italiano.Conta a história do garoto Mirco, que sofre um acidente doméstico e perde sua visão, sendo mandado por seus pais a uma instituição educacional para crianças cegas, um tipo de colégio interno existente na Itália nos anos 70, época em que se passa o filme.Lá, Mirco inicialmente destilando toda a contrariedade e raiva pela sua nova e terrível condição, acaba fazendo amizade com o menino Felice, um gordinho simpático que logo se torna seu cúmplice nas mil artimanhas que inventam e nas confusões em que se metem por conta delas.Apesar de ser um colégio para “crianças especiais”, os alunos comportam-se como os de qualquer outra escola.Existem richas entre os alunos, o valentão que implica com o recém chegado, o diretor linha-dura, a saídas para “matar aula”, e como se trata de uma instituição só para garotos, o mistério e o choque quando eles entram em contato com o sexo oposto.No caso, Francesca, a filha de uma faxineira da escola, que logo conquistará a amizade de Mirco e também se tornará sua cúmplice nas peripécias radiofônicas que inventam.Pequenas peças dramatizadas pelas crianças, que por não conseguirem enxergar o que se passa na tela do cinema, acabam desenvolvendo todo o seu imaginário através dos sons.E por meio deles descobrem o mundo e o traduzem encontrando para cada efeito da natureza um correlato forjado na sua semelhança.
“Vermelho Como o Céu”, filme baseado em fatos reais, é cheio de boas intenções, mas a despeito delas, eram bem poucos os espectadores na sala do cinema.Talvez se fosse uma produção americana obtivesse um público maior.E não seria surpresa se Hollywood refilmasse a história.
Tuesday, May 08, 2007
Banquete dos Diabos
É difícil a tarefa de comentar um filme como “A Comilança” (La Grande Bouffe), de Marco Ferreri.Trata-se de uma obra-prima e as obras-primas, assim como as mulheres bonitas, intimidam.E a obra-prima intimida ao comentarista pois o coloca na angústia de encontrar palavras que definam a grandiosidade do que ele viu na tela do cinema.Tudo o que ele escrever sobre essa obra-prima terá que alcançar a mesma dimensão, o mesmo nível do que lhe foi apresentado, mesmo que numa única frase.A descrição da história, dos possíveis vários aspectos que possa ter, a atuação dos atores, o estilo do diretor, as intenções do roteiro, todas essas coisas devem ser percebidas com perspicácia e traduzidas com acuidade, revelando até mesmo significados que possam ter passado despercebidos pelo espectador.Então, é melhor ir por partes.”A Comilança” conta a história de quatro amigos já na segunda metade da vida.Um piloto da aviação comercial, um profissional da televisão, um juiz e um comerciante.Respectivamente, Marcello Mastroiani, Michel Piccolli, Phillipe Noiret e Ugo Tognazzi (um elenco e tanto).Eles se reúnem numa casa abandonada que mais parece um castelo, para se empanturrar durante um fim-de-semana de todo tipo de iguarias preparadas por eles mesmos.Além de compartilharem da companhia de algumas prostitutas.Ou seja, uma orgia promovida como se não houvesse amanhã.E qual o motivo disso? Não sabemos e talvez nem eles mesmos o saibam.Mas para eles isso não tem a menor importância, tudo o que sabem é que estão ali para fazê-lo e se empenharão com afinco na sua tarefa.Só que aos poucos nem mesmo os quatro conseguem agüentar a abundância de prazeres comestíveis que se oferecem.Não suportam mais tanta comida.As iguarias vão se tornando repugnantes mas eles não desistem do seu intento.Irão até o fim, não importando como ele se dará.
As bizarrices e as sacanagens que ocorrem na casa surgem pelas lentes de Marco Ferreri com uma elegância e austeridade de estilo que contrasta com o que está sendo mostrado mas de nenhuma forma se choca ou desvirtua as intenções do roteiro.Pelo contrário, até enfatiza o aspecto burlesco e surreal das situações.Ferreri rege a sua sinfonia bufa com mãos de mestre e o mesmo cuidado com que seus personagens preparam seus pratos mirabolantes.Comida sofisticada devorada sem modos educados.
Philipe Noiret e Andrea Férreo
Logo se percebe que os personagens têm o mesmo nome dos atores, Marcello, Michel, Phillipe, Ugo e a gorda professora Andréa (Andréa Férreo) que se junta aos quatro na orgia, primeiramente enamorada de Phillipe, mas depois se entregando a todos eles sem restrições.O que no início parece ser fome de vida, logo se torna desejo de auto-extinção.Incompletude que toda a comida e prazeres do mundo não preencherão.Apenas a finitude da morte.
Cotação: 10
Defendendo a Garota
O filme “Cem Escovadas Antes de Dormir” (Melissa P.), de Luca Guadagnino, adaptação às telas do romance homônimo da jovem escritora italiana Melissa Panarello, que causou certa polêmica por descrever as aventuras sexuais de uma menina de 16 anos, sem a confirmação nem a negação por parte da autora sobre se seria um livro autobiográfico, tem recebido péssimas avaliações por parte dos críticos brasileiros.Então, fui ao cinema já esperando um tremendo abacaxi, com um erotismo à pornô-soft, ou situações ridículas, ou apenas um pretexto pra mostrar adolescentes sensuais e sarados em surubas ao som de tecno ou do nu-metal.Mas não foi exatamente isso que encontrei (ou não “apenas” isso).O filme, assim como o livro, pode não ser nenhuma maravilha nem uma versão adolescente para “O Último Tango em Paris” , mas decididamente não é um filme que mereça a categoria de “péssimo”.Pelo contrário, em boa parte dele nota-se um roteiro cheio de soluções inventivas e personagens mais vinculados à vida comum do que a um mundo luxuriantemente erótico e irreal.A começar da atriz que interpreta o papel principal, Maria Valverde.Ao vê-la de maiô logo numa das primeiras seqüências já percebemos não se tratar de nenhuma jovem escultural ou alguém com o biotipo de uma top-model.A Melissa do filme tem suas imperfeições físicas, que não deixam de exercer certo encanto, mas vê-se logo que se trata de uma pré-adolescente, e seus desejos e incertezas apenas a humanizam mais ainda aos nossos olhos, fazendo até com que a desculpemos quando não se recusa a satisfazer o desejo daquele por quem é apaixonada, o bonitão e cafajeste Daniele.Afinal, o que ela mais quer é viver e não ser uma mera expectadora do mundo (e isso também não norteava a nossa adolescência?).
Melissa tem uma amiga gordinha e inseparável é filha de pais separados,vive com uma mãe charmosa mas meio desligada dos problemas da filha e uma avó, Geraldine Chaplin, que idolatra como sendo a única capaz de entender seus anseios e necessidades.Sua paixão pelo garoto Daniele, como já foi dito, a leva a ultrapassar limites e pudores, sendo que ao invés de aproximá-la dele por ceder aos seus caprichos, seus atos apenas a levam a ser vista como um objeto, desprezada e ridicularizada pelos colegas e usada e descartada por aquele a quem ela devota seu coração.Mas quanto mais ela se machuca e sente raiva de todos mais se convence de que a única maneira de mostrar-se superior é indo cada vez mais fundo, aceitando o papel de “putinha” em que lhe colocam e não negando seus desejos, nem mudando o rumo que resolveu seguir, ao contrário, segue firme nele, a despeito de se machucar cada vez mais.
No livro, a trajetória de Melissa é contada em forma de diário e suas experiências sexuais não se limitam apenas aos garotos da escola – no filme também não mas no livro há um envolvimento maior dela com um homem mais velho, coisa que no longa foi reduzida a uma única experiência e mal sucedida, enquanto que no livro ela se envolve bem mais e por mais tempo.Aliás, o romance “Cem Escovadas...” não pode ser considerado algo no nível da produção de mestras do erotismo como Anais Nin ou Gabrielle Collette, muito menos do grande professor George Bataille.
No filme, o diretor optou por uma abordagem claramente dirigida aos adolescentes, não há cenas de sexo muito impactantes e talvez seja isso o que mais frustrou a quem foi assisti-lo tendo em mente o que leu.O romance de Panarello é um relato adulto das aventuras de uma adolescente e o filme é uma narrativa um tanto pudica e limitada com a intenção de não chocar demais ao público entre dezesseis e dezoito anos.Ou seja, grande parte dos críticos esperava “O Último Tango em Paris” e teve que se contentar com “Malhação”.
O que não significa que o filme seja decepcionante, é apenas correto demais e ao final esforça-se para passar uma “mensagem” do tipo “não tentem isso em suas vidas, crianças”, coisa que no livro de Melissa não se vê nem sombra.
Cotação: 7
Na Teia da Aranha
Em 1986, William Hurt ganhou um Oscar de melhor ator pela atuação em um filme baseado em romance argentino, transposto para o Brasil da época da ditadura militar, apesar das filmagens mostrarem um país que entrava na redemocratização.O filme era “O Beijo da Mulher-Aranha”, dirigido por Hector Babenco e o autor do romance, o argentino Manuel Puig, que também colaborou no roteiro.O papel que trouxe a Hurt o prêmio foi o do travesti Molina, que divide uma cela de prisão com o ativista político Valentin (Raul Júlia).Os dois são a antítese um do outro.Enquanto Molina refugia-se da dura realidade rememorando e/ou inventando enredos de antigos e glamourosos filmes, Valentin angustia-se mais pela situação em que se encontram seus companheiros também presos do que pela sua própria.Ele prefere manter-se lúcido e alerta às artimanhas da direção do presídio que quer vê-lo delatar seus colegas de ativismo.Já Molina é todo languidez e afetação, exasperando Valentin com uma história de amor de ideologia nazista a qual Molina não dá nenhuma importância, atendo-se apenas ao caso de amor entre seus protagonistas estereotipados, uma cantora de cabaré (Sônia Braga) e um oficial alemão (Herson Capri).A “Mulher-Aranha” do título sai também da imaginação de Molina, que a cria como uma personagem misteriosa que viveria sozinha numa ilha deserta, trazendo colada a si uma imensa teia de aranha.O que Valentin não sabe é que Molina, na verdade, está a serviço da polícia.Foi incumbido por eles de ganhar sua confiança e conseguir informações sobre as atividades da resistência e os nomes nelas envolvidos.
A impressão que tive foi a de ser “O Beijo..” um filme dividido em dois.Há o que se passa dentro da cela, intimista e calcado na relação entre Molina e Valentin, e outro, que acontece nas ruas da São Paulo dos anos 80, numa paisagem meio brega, onde a figura do americano alto e loiro Hurt destoa do restante da população do centro da cidade, baixa e morena.Mas esse estranhamento, aos poucos, torna-se até positivo, quando vemos Hurt contracenando com Milton Gonçalves ou José Lewgoy, e em inglês.Ou quando Hurt fica cara a cara com Nuno Leal Maia.O contraste que surge seria o mesmo entre um marciano e um terráqueo.E esse estranhamento estende-se também à dificuldade de definir o filme.Afinal, ele é americano ou brasileiro?E mais, como uma produção tão híbrida conseguiu cair nas graças dos membros da Academia que acabou indicando-o para os principais prêmios?
Pois este não é um filme fácil.A maior parte do tempo estamos dentro de uma prisão fétida, a ação entre Valentin e Molina quase sempre é interrompida para que o travesti discorra sobre o tal filme imaginário (a história da cantora e do oficial nazista), e só aos poucos nossa simpatia é ganha por ele, com suas tiradas irônicas e sua fragilidade postiça.O Valentin de Raul Júlia comove mais quando, depois de uma diarréia causada por um veneno na comida, entrega-se aos préstimos de Molina, como se fora um menino envergonhado cuidado pela mãe, do que quando se vê nele as marcas da tortura praticada por seus algozes.Aos poucos sua humanidade aflora, substituindo a grosseria e macheza guerrilheira.
A presença de Sônia Braga, pontuando o filme, ora como a cantora Lena, ora como Marta, a amiga que Valentin deixou em seu passado, ou ainda como a “Mulher-Aranha”, acaba ajudando a embaralhar mais um pouco os signos não só do filme mas também da própria participação da atriz nele.A cantora de cabaré é um pouco canastrona e estereotipada (por conta da imaginação de Molina) e a amiga de Valentin, Marta, surge com uma cabeleira no estilo “Gabriela”.Aliás, a estadia de Sônia nos EUA parece ter apagado um pouco daquela espontaneidade que exibia nas telenovelas dos anos 70.Sua atuação passou a ser mais contida, mais fria, envolta numa técnica que mais a “engessou” do que ajudou a canalizar seu potencial artístico.A soberba atuação de William Hurt tem momentos poéticos.Molina exibe uma altivez, agindo como uma lady, uma Grace Kelly em busca de seu Cary Grant, ou uma deusa diáfana em meio à sordidez da clausura hedionda.
E o filme? E Babenco? Bem, o diretor não é conhecido por ser ousado.Babenco é um cineasta conservador, que busca apenas a beleza, e isso já seria o suficiente.E ele sabe como encontrá-la.Se a história é feia e suja, faz-se o filme mais belamente feio e sujo que se consiga.Com o sucesso de “O Beijo...” , sua carreira norte-americana deslanchou e ele fez “Ironweed”, com Jack Nicholson e Meryl Streep, e depois “Brincando nos Campos do Senhor”, filme grandioso mas pouco lembrado.
Molina (Hurt) e Valentin (Julia) dividem a cena
Ao final, o que fica é a sensação de que “O Beijo da Mulher-Aranha” é um filme a ser visto e revisto, redescoberto, pois não se revela logo de cara nem quando o assistimos a primeira vez.Em perspectiva, vinte e dois anos depois de seu lançamento, ele ainda mantém-se enxuto e pronto para ser reavaliado, sem medo de mostrar imperfeições e as marcas da velhice, aquelas que tanto angustiavam ao personagem Molina.
Cotação: 7
Thursday, May 03, 2007
Cinema à Italiana

Alguma coisa muito interessante acontece no cinema italiano.Duas amostras disso são “Ida e Volta” (Andatta + Ritorno), de Marco Ponti e “Após a Meia-Noite” (Doppo Mezzanotte), de Davide Ferario.O primeiro, de 2004, conta a história de Dante (Libero de Rienzo), jovem que trabalha como office-boy, de bicicleta pela cidade de Turim, vive em apertos financeiros, é louco pelo Nirvana e acaba jurado de morte por estar em dívida com um agiota barra-pesada que promete lhe tirar a vida se ele não saldar sua dívida de 30.000 euros.Já que não consegue o dinheiro Dante resolve fugir numa volta ao mundo que acaba sendo um total desastre.Enquanto isso, uma greve-monstro na cidade acaba impedindo decolagens e pousos no aeroporto, obrigando passageiros e tripulação, e entre estes a belíssima comissária de bordo Nina (Vanessa Incontrada) a se virar para arranjar hospedagem em meio a todos os hotéis lotados de Turim.Ela acaba conhecendo um empregado de hotel que lhe oferece uma pequena habitação num prédio popular, no momento desocupado.Sim, Nina foi parar justo na casa de Dante, que depois da malfadada fuga, retorna e a encontra, linda, e agora sua locatária – e sabendo tudo sobre ele.Dante, então, precisa arranjar o dinheiro a qualquer custo, pois Nina acabou envolvendo-se involuntariamente na história toda, e os dois se envolveram também amorosamente.Já em “Após a Meia-Noite”, de 2002, que também se passa em Turim, os heróis são Martino (Giorgio Pasotti), um solitário vigia do Museu do Cinema da cidade, apaixonado pelos filmes de Buster Keaton, que assiste durante as madrugadas, depois da meia-noite.Martino não fala muito e sua visão de mundo é bem parecida com as das comédias de Keaton.Ele tem uma paixão platônica por Amanda (Francesca Inaldi), funcionária da lanchonete fast-food que todas as noites lhe atende e sempre ao mesmo pedido.Ela, nem um pouco contente com seu dia-a-dia, namora o inconstante Ângelo(Fabio Troiano), que na verdade preocupa-se mais consigo próprio do que com a namorada.Um dia, Amanda investe contra seu patrão na lanchonete, ele chama a polícia e ela, então, torna-se uma fugitiva da lei.E acaba buscando refúgio aonde? Justamente no Museu do Cinema, o mundo à parte em que vive Martino.
Os dois filmes tem algumas coisas em comum além da nacionalidade.Os dois foram filmados em câmera digital e exploram de forma magistral as possibilidades estéticas que essa tecnologia oferece (de um modo inédito, por exemplo, no Brasil).Os dois têm histórias simples mas não simplórias e se não chegam a ser revolucionários, ao menos garantem o envolvimento e consequentemente a diversão do espectador.Além das atrizes serem lindíssimas, o que em cinema já é meio caminho andado para manter presa a nossa atenção – e nisso as italianas são pródigas.
Enquanto eu estava ali na sala escura, comecei a questionar a mim mesmo: por que no Brasil ninguém faz filmes desse jeito? Criativos, com uma liberdade autoral que remete à Nouvelle Vague e ao Cinema Novo (guardadas as devidas proporções, é claro).De qualquer forma, fica a certeza de que o cinema italiano vem sabendo tirar proveito desses novos tempos tecnológicos.En nostro pais os cineastas ainda insistem num jeito caro e lento de produção.Além da insistência em narrativas que oscilam na emulação ora de Almodóvar, ora dos Irmãos Cohen.
Cotação: “Ida e Volta” – 9
“Após a Meia-Noite” - 9
Cheiro de Queimado
As qualidades do filme “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia são reconhecíveis já no seu início ao nos depararmos com as formas sedutoras da atriz Paula Braun na pele da garçonete de nome impronunciável de tão cafona, segundo o que um pouco mais tarde nos informará o protagonista Lourenço, vivido pelo monocórdico Selton Mello.Ele, um negociante de artigos usados diversos cuja característica principal é a de se interessar por coisas antes inusitadas do que propriamente úteis.O escritório de Lourenço começa a ser infestado por um cheiro horrível vindo do ralo do banheiro.Aos poucos, ele acaba atribuindo mil significados ao fato de ser vítima daquele fedor.Começa a achar que o cheiro influi nos acontecimentos da sua vida.Pouco a pouco ele já não se reconhece, começa a agir como que tomado pelos efeitos do cheiro.Para ele, é como se fosse o cheiro do inferno.O filme é baseado no romance de Lourenço Mutarelli, que participa do elenco como o leão-de-chácara de Lourenço (o personagem).
Mas se o filme tem pontos positivos também é possível identificar aspectos negativos.Um deles é um certo ranço herdado de filmes como os dos Irmãos Cohen (“Barton Fink”, por exemplo).Filmes em que a intenção de fugir do comum acaba resultando numa overdose de representações sem nenhum significado.Ou seja, em muito barulho por nada, no caso dos Cohen, e no de Dhalia, num anúncio escancarado de “mamãe, quero ser cult!”.
Mais, a cena em que Lourenço rompe com a noiva depois de um malfadado jantar é puro teatro filmado.E é difícil concluir por que Dhalia optou por esse tipo de tratamento a essa cena em especial.Outra coisa que incomoda é o tom monocórdico-balbuciante de Selton Mello.Esse seu estilo de interpretação é já conhecido e não chegou a comprometer seu desempenho em outros trabalhos.Mas neste filme ele exagera.Mello ganhou um prêmio de melhor ator em um festival mas ironicamente a melhor atuação é a do autor do livro, o amador Lourenço Mutarelli.
Afinal, com esses pequenos defeitos cruciais por que “O Cheiro do Ralo” não é um filme ruim? Primeiro, a história é muito boa.Segundo, os coadjuvantes salvam o filme.Entre eles, a garota junkie Sílvia Lourenço, que terá uma participação-chave no destino do personagem Lourenço.E é claro, a torcida que mantemos para que Paula Braun apareça de novo na tela.Tudo isso faz com que saiamos do cinema até desculpando os excessos de Mello e Dhalia, e com a sensação de que por pouco, muito pouco, não jogamos nosso dinheiro no ralo assistindo a mais um traque do cinema brasileiro.
Cotação: 5
Tuesday, May 01, 2007
Sai do Chão! Sai do Chão!
Se o filme “Ó Paí Ó” fosse uma produção estrangeira certamente estaria sendo acusada de retratar o Brasil usando todos aqueles estereótipos típicos de filmes como “Blame It On Rio”, de Stanley Donen ou “Orquídea Selvagem”, de Zalman King.Um país de gente sexualmente liberada, onde na época do carnaval a alegria fosse tão esfuziante que não seria estranho encontrar pessoas transando em plena rua.Pois são esses estereótipos que balizam o filme dirigido pela brasileira Monique Gardenberg. “Ó Paí Ó” é baseado numa peça do grupo de teatro do Olodum e se passa durante o último dia do carnaval em Salvador.Mostra a mistura entre os afazeres de um dia normal de trabalho com os preparativos para a festa noturna no circuito dos trios-elétricos.Os personagens são moradores de um cortiço, alegres, cheios de vida, de malícia e malemolência, mas que vivem em conflito com a dona do lugar, uma fervorosa evangélica, que vira e mexe toma medidas restritivas como interromper o fornecimento de água pela falta de pagamento de seus inquilinos mas também pela falta de “vergonha na cara” deles.O começo do filme é empolgante e promissor.A beleza das imagens combinando a arquitetura histórica do Pelourinho com a bagunça dos foliões coloridos e desfeitos numa manhã de carnaval faz lembrar o cinema brasileiro dos anos 70, quando este não tinha vergonha de ser obsceno e exagerado, oferecendo ao espectador uma dramaturgia diferente daquela encontrada nas tele-novelas (justamente o que o cinema atual incorpora como uma suposta receita para o sucesso).
Os atores estão fabulosos, principalmente Lázaro Ramos, que paulatinamente, filme após filme, só reafirma sua grandeza na interpretação em tipos tão díspares, tornando-se eles mas ao mesmo tempo fazendo com que eles se amoldem a sua figura, a sua entonação de voz, ao seu gestual.Ramos é ao mesmo tempo um camaleão e um entertainer .Outra que se destaca entre o ótimo elenco é Luciana Souza, que interpreta Dona Joana, a evangélica mantenedora do cortiço.Sua religiosidade ferrenha e sua fala incisiva e caricatural, apesar de repressora e reacionária, acaba por nos conquistar e ao final já não desgostamos tanto dela como se fosse uma mera corta-onda do bando de bagunceiros.Ela também têm desejos e sentimentos como os nossos, por mais que não os assuma.Wagner Moura também deixa sua marca mas seu personagem é meio confuso.Não se define como “mau” nem passa pelo mesmo processo de mudança de imagem que a evangélica.
Aos poucos o exagero que nos sacodiu da mesmice acaba apenas nos incomodando.Conforme a noite chega na história parece ser a senha para o desregramento do roteiro e a total desfaçatez por qualquer fio-condutor que até então estivesse expondo os acontecimentos.A partir daí parece que caímos num filme do já citado Zalman King, onde o mais importante fosse mostrar o mar de abadás acompanhando os trios e enfatizar a alegria “esfuziante” e a “liberalidade” do carnaval.Um exemplo disso ocorre com a personagem da linda Emanuelle Araújo, que sai às ruas junto da turma dos abadás caríssimos.Num instante a vemos dançando no meio dos pagantes e noutro se atracando com um desconhecido, fazendo caras e bocas de devoradora de homens em plena rua como naqueles filmes de Neville D’Almeida.Outra cena improvável é a da personagem de Dira Paes sentada no colo de um outro personagem morador do cortiço que está simplesmente dirigindo o caminhão do trio-elétrico enquanto ele desfila! Como se o profissionalismo do carnaval de Salvador (ou o de qualquer outro carnaval) permitisse tal liberalidade.
Sem falar (e já falando) que “ÓPaíÓ” entra para os anais do cinema brasileiro como talvez o único longa-metragem da história (pelo menos entre os que eu já assisti) que faz um merchandising na sua cena final.A última imagem do filme é a de uma lata de cerveja com o logotipo virado para a tela.
“ÓPaíÓ” não é um filme ruim, é apenas irregular.A brisa libertária que sopra no início aos poucos transforma-se em mormaço sufocante.E se então queríamos nos juntar ao bloco carnavalesco de rua, agora a vontade é a de ficar o mais longe possível dos decibéis e dos malditos gritos de “Sai do chão! Sai do chão!”.
Cotação: 5
A Rainha Entediada

Mas acontece que não fui o único a receber esse balde de água gelada (nem tão gelada assim, vá...).A reação ao filme em Cannes foi morna, isso quando não raivosa, por Sofia não ter sido fiel à personagem histórica e à trajetória desta jovem austríaca que se uniu ao herdeiro do trono da França Luis XVI num casamento arranjado, que consuma-se depois de muito esforço ( pois Luis só se interessava por caçadas e cadeados).A linda e frustrada Antonieta então entrega-se aos prazeres da corte (os alimentícios e depois os sexuais) que preencherão o seu vazio existencial.Na verdade, Sofia foi fiel à personagem do livro em que o roteiro é baseado.E só isso já basta.
Então, qual é o problema do filme? Perguntava-me isto enquanto contemplava as lindas imagens da linda Srta. Durnst na imponente e clássica Versalhes. Seus palácios e jardins, a opulência da corte real francesa e as boas atuações dos atores.Jason Schwartzman no papel de Luis XVI e a já citada Durnst como Antonieta.Este escriba não conseguia distinguir se o tédio que sentia provinha do filme em si ou da rotina retratada nele.Na verdade, até entendi certos procedimentos de Sofia na condução da história.Por exemplo, a partir do momento em que Antonieta resolve entregar-se a os prazeres da corte o filme transforma-se numa paródia daquelas típicas comédias de adolescentes sobre patricinhas.Mas se a diretora ousa na trilha musical (de muito bom gosto, aliás) inserindo canções dos anos 1980 numa história do século XVIII, mostra-se conservadora em outros apectos.E isso fica claro quando ela usa recursos inventivos para deslindar situações cruciais no roteiro.Por exemplo, na morte do terceiro filho do casal real.Somos informados da morte do bebê por uma simples sugestão.Sem diálogos, sem dramas, com sutileza e elegância.É um dos pontos altos do filme e a constatação de que grande parte dele ficou baixo desse pico.
E para quem tinha tanta habilidade em abordar temas intricados e densos como demonstrou em “As Virgens Suicidas” e “Lost in Translation”, espanta (e não espanta) que “Maria Antonieta” tenha levado apenas um Oscar de Melhor Figurino.Mais sorte na próxima vez, Domino.
Um Filme Iluminado
Em 1959, cineastas franceses promoveram uma revolução no cinema de seu país, que repercutiria influenciando o trabalho de inúmeros outros cineastas em vários outros países.Filmes como “Acossado”, de Jean-Luc Godard ou “Os Incompreendidos”, de François Truffaut faziam a linha de frente do movimento conhecido como Nouvelle Vague.Pois no continente americano, mais precisamente nos EUA, um outro nome surgia, iniciando um estilo cinematográfico que assemelhava-se ao dos franceses, e em alguns aspectos até os superava no arrojo e novidade.Seu nome era John Cassavetes.Muito mais conhecido como ator (“O Bebê de Rosemary”, “Os Doze Condenados”) do que como diretor, os filmes de Cassavetes nunca foram campeões de bilheteria nem ganharam Oscars, e mesmo hoje não são laureados como deveriam em seu próprio país.Mas se existe alguém que pode ser identificado como o precursor do cinema independente americano como o conhecemos, esse é o homem.Seu primeiro filme, “Sombras”, é justamente de 1959, mesmo ano de “Acossado” e “Os Incompreendidos”.Mas ao contrário destes dois não causou arrebatamento no público de seu país como ocorreu com aqueles na França.
Um elemento importante dos filmes de Cassavetes é a improvisação.Pode-se notar isso em seu primeiro longa-metragem e também em “Faces”, de 1968.Os diálogos fluem como numa conversa informal e os rostos são captados em momentos de descontração ou angústia como que em instantâneos documentais, ou quando percebemos determinada situação com o “rabo-do-olho” enquanto mantemos nosso rosto voltado para outra direção.Seus filmes são quase documentários, a câmera se imiscui num grupo de personagens como alguém que se sentasse à mesa com eles, observando toda a conversa, mas não como um ente invisível.Existem muitos closes, como se a lente quisesse desvendar possíveis vacilações dos personagens (e mesmo dos atores) naquilo que expressam, como que tentando ver em seus olhos se estão mesmo sendo sinceros.Ou ainda, apreendendo toda a vida que deles emana, um olhar, um sorriso, uma gargalhada ou um jeito bêbado.
Em “Sombras” temos a história de três irmãos: Hugh, um cantor de Blues em dificuldades financeiras, aceitando trabalhos em boates de quinta categoria.Bernie, o mais novo, rebelde que só se mete em encrencas junto com sua turma de vadios barra-pesada.E Lelia, linda e perspicaz, não muito convicta de suas aspirações literárias ou mesmo de qualquer outra aspiração profissional ou pessoal.O filme é tão despojado que os atores emprestam seus nomes reais aos personagens (Ben Carruters, Hugh Hurd e Lelia Goldoni).


Hugh Hurd
Cotação: 10