Sunday, August 30, 2009

Doce Deleite

"Caramelo", de Nadine Labaki relata o cotidiano de quatro amigas que trabalham num salão de beleza.Uma vive um romance com um homem casado e as agruras de ter de atender a esposa dele no salão, outra participa de testes para trabalhar na TV, sem sucesso e ainda tenta esconder sua entrada na menopausa, outra está prestes a se casar com um rapaz cuja família de rígidos costumes a obriga a esconder sua real personalidade, e por fim, uma outra, lésbica, cultiva uma paixão platônica por uma misteriosa cliente exclusiva.
O filme pode ser avaliado negativamente por seus clichês mas apenas se não mencionassemos tratar-se de uma produção libanesa.E o fato de não sabermos muito sobre o Líbano atiça a nossa curiosidade quando nos deparamos com um filme fortemente influenciado pelo universo almodovariano.E isso nos interessa ainda mais quando vemos essa característica mesclada com aspectos da cultura libanesa, o que acaba mostrando também o quanto essa cultura absorveu do ocidente.E, afinal, descobrimos que mesmo com preceitos religiosos, e um controle governametal tão rígido, um país como o Líbano apresenta tipos tão universais.
Outra coisa que absolve o filme da linda Labaki (que também trabalha nele como atriz) é a sua recusa ao inevitável final feliz.O tom de comédia não exclui o fato de que nem tudo na vida acaba bem.
"Caramelo" é um filme divertido, colorido, e mesmo sem esses atributos ainda restaria a beleza exuberante da atriz e diretora Nadine Labaki.


Saturday, August 29, 2009

DVD - Bande à Part - 1964


"Bande à Part", de Jean-Luc Godard, é um daqueles filmes que exalam liberdade.Numa fotografia que torna Paris prateada, locomovem-se pela cidade Odile, Arthur e Frantz, sem destino, tentando sair do marasmo do cotidiano.Em busca de amor e de dinheiro fácil.O triângulo amoroso lembra o de "Jules e Jim", de Truffaut, mas também o de "Uma Mulher é Uma Mulher", do próprio Godard, com a própria Anna Karina (Odile), de olhar triste e tímido, bela jovem que se encanta pelos dois amigos e se deixa levar, mesmo quando eles propõem um assalto à sua mantenedora (e, no fundo, eles a estão usando para esse intento).
Em certo sentido, todos os protagonistas de Godard estão "à bout de souffle" (ao sabor do vento, título original de seu primeiro filme "Acossado"), Michel/Belmondo também buscava a liberdade de ações e direções, mas com um bom dinheiro pra gastar.
Os (anti) heróis de Godard vivem à margem da sociedade, recusam-se a fazer parte da engrenagem que a mantém funcionando aos trancos e barrancos, anseiam por uma vida longe de amarras e quase sempre longe do mundo europeu (no caso, Odile e Frantz, depois do assalto mal-sucedido, decidem ir para o Brasil).
No filme há pelo menos duas sequências antológicas, a da corrida pelos corredores do Museu do Louvre, e a da dança sem som na lanchonete, logo preenchida pela música de Michel Legrand, que, aliás, é o responsável por boa parte do encanto deste filme.
Cinema é imagem, som, e um rosto bonito de mulher.




Saturday, August 22, 2009

Sessão especial -"Queimada"

O assunto principal de "Queimada", filme de Giulio Pontecorvo, é a busca pela liberdade e os interesses subjacentes que sempre a acompanham.Neste caso, a tomada do controle sobre o comércio do açúcar pelo Reino Unido, de Portugal, depois de insuflada uma revolta de escravos, na ilha de Queimada.
O representante inglês Sir William Walker (Marlon Brando) cria as condições morais e financia a logística para que os escravos, liderados por um certo José Dolores (Evaristo Marquez) , dêem o golpe que derrubará o mando português na ilha.
O líder negro é escolhido por Walker ao acaso, quando tem sua mala roubada por ele logo ao desembarcar, e aos poucos o inglês o vai moldando, o convencendo, sem que ele perceba, a conduzir a revolta, liderando a massa, mas apenas preparando o terreno para o domínio inglês.
Logo, José será também perseguido pelos ingleses, como líder rebelde.E também logo descobrirá que sua vocação não é o poder ou a riqueza e sim a liberdade.Ele almeja apenas ser o senhor dos seus atos, coisa impossível quando se vive sob o jugo do trabalho visando ao lucro de outros.
O escritor Olavo de Carvalho, num texto recente, considerou "Queimada" um exemplo de filme defensor de um ideário comunista.Uma interpretação, até certo ponto, pertinente.Pois José, ao final, é capturado e morre enforcado, mas o apátrida Walker também, esfaqueado por um outro negro que tenta roubá-lo da mesma forma como José Dolores havia feito.Ou seja, apesar de Walker haver simpatizado com Dolores enquanto este estava encarcerado, a ponto de facilitar a sua fuga, libertando-o das amarras para que escapasse da execução, não há perdão para o "mercenário capitalista".José não foge, pois, no fundo,sabe que nunca poderá ser livre, e que a sua morte surgirá como uma vitória sobre o jugo inglês, inspirando outras revoltas no futuro.
Uma curiosidade, na famosa entrevista concedida à larry King, depois de um silêncio de anos, ao ser perguntado sobre qual a sua atuação favorita nas telas, Marlon Brando ao invés de escolher as mais celebradas de sua carreira ("On The Waterfront", "A Streetcar..." ou "Godfather") apontou a deste filme.

Saturday, August 01, 2009

Truques Baratos

Charlie Kaufman ficou famoso por seus roteiros incomuns que resultaram em cult-movies ("Quero Ser John Malkovitch", "Adaptação", "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças").Agora em sua primeira incursão como diretor, além de também assinar o roteiro, apresenta "Sinedoque New York", com Philip Seymour Hoffman no papel principal, o de um diretor de teatro, que descobrindo sofrer de uma doença fatal, resolve encenar uma peça autobiográfica.Além do drama causado pela misteriosa doença ele ainda tem que lidar com o dilaceramento de sua vida amorosa, a esposa o abandona levando consigo a filha pequena, suas tentativas de engatar um novo romance com a bilheteira do teatro em que sua adaptação de "A Morte do Caixeiro Viajante" está em cartaz, mostram-se patéticas, e para confundi-lo ainda mais, surge um estranho personagem, que dizendo segui-lo pelas ruas durante anos, se oferece para representá-lo na peça autobiográfica, que cada vez mais confusa, parece fadada ao fracasso, ou talvez nem sequer chegue de fato, a ser encenada.
A história mirabolante pode até sugerir um filme promissor, mas o adjetivo ideal para "Sinedoque NY" é "decepcionante.Com mais de duas hgoras, o filme não chega a empolgar em momento algum.O personagem de Hoffman não tem nenhum carisma, e as esquisitices típicas dos filmes de Kaufman, ao invés de servir (como sempre acontece) de "distração" à história frouxa, apenas aumentam a irritação do espectador, e a sensação de que está sendo feito de trouxa pelo cineasta.O tom pessimista - algo que está se tornando, cada vez mais, um maneirismo nesse tipo de filmes metidos a "sérios" - chega a ser opressivo, mas no fundo, Kaufman não nos quer convencer de nada, antes fosse, talvez assim mostrasse mais honestidade, e não tentasse distrair nossa atenção durante 130 minutos com truques baratos.

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