Monday, September 25, 2006
O Mundo (Não) é das Mulheres

Por mais avanços que as mulheres tenham conseguido ao longo dos anos existem determinadas áreas de trabalho dominadas pelos homens, que fazem questão de que continue assim.Até onde vai o mau-caratismo masculino?Até que ponto uma mulher consegue aguentar para defender o seu direito a condições dignas de trabalho?O machismo é algo atávico ao ser masculino?Uma mulher ou um homem devem baixar a cabeça quando são maltratados pela própria empresa em que traabalham?Todas essas perguntas e as respectivas respostas estão em “Terra Fria” (North Country), um dos filmes mais comoventes a que eu já assisti na vida.
Somos apresentados à Josey (a cada vez mais linda e surpreendente Charlize Theron), casada, com dois filhos, ela sofre violencia por parte do marido e depois de mais uma surra decide abandoná-lo e buscar abrigo na casa dos pais.Lá, ela é bem recebida apenas pela mãe.Seu pai ve sua fuga das pancadas do marido como frivolidade e mesmo sua mãe no início tenta convence-la a perdoá-lo e a voltar para o seu lar.O histórico de Josey com seu pai (e com os homens em geral) não é nada bom.Ela engravidou ainda adolescente de um estupro cometido pelo seu professor, teve que enfrentar a ira paterna e o preconceito da cidade onde morava.Preconceito que volta a se abater sobre ela por conta da separação do marido.Ela é vista como a “vilã”do caso.A violencia que sofria, para a maioria dos habitantes de Minesotta, parece não ter nenhuma importancia, só que interessa é a resignação e a obediencia ao homem da casa.No fundo, várias daquelas mulheres sofreram o mesmo mas preferiram continuar submissas.
Mas as coisas ainda pioram mais um pouco.Josey precisa trabalhar e então depois de um reencontro com uma velha amiga Glory (a grande Frances McDorman)decide se candidatar a uma vaga trabalhando na mesma mina de carvão em que ela está.Josey e outras moças são contratadas mas o que parecia a chance de ganhar seu próprio sustento acaba se tornando um pesadelo.Ela e as outras novatas passam a ser assediadas por seus colegas de trabalho, primeiro de forma jocosa, depois, violenta e humilhante.Eles não gostam da presença feminina, fazem de tudo para testar sua capacidade de aguentar o “trabalho de homem” na mina.Com o tempo tentam destruí-las psicologicamente.Josey é a mais visada.E para seu azar reencontra lá um antigo namoradinho da escola que presenciou o estupro do professor e nada fez.Ele a assedia impiedosa e impunimente.
Mas Josey decide reagir, tenta com que a chefia intervenha mas é inutil.E entre as outras garotas assediadas também não consegue apoio pois elas temem represálias ou até mesmo a perda do emprego.Assim como todos esperavam que ela abaixasse a cabeça para o marido violento, agora esperam que faça o mesmo com relação aos casos de abuso no trabalho.
Ela conhece Bill White(Woody Harrelson), um ex-jogador de hóquei que virou advogado, vindo de Nova York.Josey pede sua ajuda.No começo ele vacila, pois já preve as dificuldades do processo e os golpes baixos no tribunal.Mas, enfim, acaba aceitando.E ele estava certo pois no tribunal, a advogada da firma mineradora expõe o passado de Josey e tenta passar a idéia de que ela era promíscua.Para que eles consigam processar a companhia alegando um preconceito de classe seria preciso que mais mulheres se juntassem a ela na ação.O que , no final, ela consegue e a companhia é derrotada e obrigada a oferecer melhores condições de trabalho às funcionárias.
“Terra Fria” é baseado em fatos reais.No fundo não é apenas um filme sobre o machismo mas sobre vários tipos de preconceito, contra homossexuais, por exemplo.Uma das garotas assediadas quando quer ofender alguém por ter sido esnobada num pedido para dançar chama o sujeito de “homo” (algo que ele não era).
A violencia masculina esconde uma profunda dependencia das mulheres.O pai de Josey, durão e machista, é incapaz de lavar uma peça de roupa sequer.E todos aqueles operários que ofendem suas colegas são os mesmos que participam da confraternização anual com suas esposas e filhas.
Existem algumas situações paradoxais, por exemplo, quem perpetra o terrível linchamento moral de Josey no tribunal é uma mulher, a advogada da firma mineradora.As outras colegas de Josey ao invés de se juntarem a ela na luta, ao contrário, se voltam contra ela, passam a desprezá-la.São tantos os abusos por que passa que chega a ser revoltante.
Monday, September 18, 2006
À Sangue Frio

Até que enfim assisti a um filme que não vende tédio como se fosse densidade dramática.Esse filme é “Capote”, de Bennett Miller.Ou seria melhor dizer “de Philip Seymour Hoffman”? Sim, porque cada vez mais nota-se como as características marcantes de um filme marcante tem mais a ver com o seu roteirista ou com seus atores principais do que com o diretor.E os atores estão tendo cada vez mais autonomia para construir seus personagens sem a interferencia do diretor que acaba exercendo uma função meramente técnica no set de filmagem.
“Capote”é resultado de uma idéia concebida pelo escritor Gerald Clarke mas levada às telas pelo roteirista Dan Futterman que convidou para tocar o projeto um seu amigo de infancia, o diretor Miller.
Mas cinquenta por cento da atração que gera fica por conta de Hoffman/Capote.Uma atuação magistral realmente digna do Oscar recebido por ele neste ano (até que enfim pois o gordinho loiro já merecia ser agraciado com uma estatueta).
Quem ouve Hoffman nos extras do DVD falando com aquela voz grave antes do filme pronto ficaria descrente de uma possível imitação da voz de pato de Truman Capote.E no entanto foi feito.
No início do filme ainda achei a caracterização do escritor meio exagerada mas ao ver Capote numa cena documental nota-se como Hoffman foi magistral.Se no início sua presença é meramente folclórica aos poucos vai surgindo um lado sombrio do personagem, que se afunda na incerteza da conclusão de seu livro sobre o caso da família assassinada por dois sujeitos que acabam condenados à morte.O crime ocorre no final da década de cinquenta em Kansas City.Capote, entre uma badalação e outra, recém saído do sucesso do romance “Breakfast At Tiffany`s”,( cuja história frívola e descompromissada era o oposto que se proporia a realizar o escritor) le no New York Times a notícia sobre o caso e resolve que aquele será o tema de seu próximo livro.
Ele mais sua amiga e também escritora (e que também logo chegaria à fama por seu romance “To Kill A Mockingbird), Nelle Harper Lee, vão até o local buscar as primeiras impressões sobre o ocorrido através de entrevistas com os moradores.Estes recebem o escritor famoso da grande cidade(e notóriamente gay) com toda a desconfiança do mundo.Menos as mulheres que se encantam com o jeito de Capote, extrovertido e brincalhão, tudo friamente calculado para conseguir maior confiança e informações sobre o caso.
Truman consegue não só as informações mas também chegar até aos bandidos já presos.Aproxima-se de um deles em especeial Perry Smith que mantem uma greve de fome na cadeia.Aos poucos Capote cria uma relação de proteção e afeto com Smith que lentamente vai contando seu passado achando que o livro que Capote prepara servirá para tirá-los da prisão e livrá-los da pena capital.Ledo engano.O escritor, vislumbrando o sucesso à sua frente, não se importa com o drama de Phil e de seu parceiro, só o que lhe interessa é lançar o livro o mais rápido possível.Coisa que parece impossível pois se Capote tem uma boa história ainda não tem o seu final.E o final só virá com a condenação dos assassinos.E ele espera por esse final por meses, anos, sem notar a angústia do presidiário que lhe entregou o destino da sua vida em suas mãos.
Mas tudo bem pois no fim do filme Capote se ressente pela morte dos dois.Não, não é remorso.Apenas sente-se mal e talvez um pouco de culpa.Ao final ficamos sabendo que depois de In Cold Blood ele nunca mais conseguiu terminar um livro.
Monday, September 11, 2006
Mamãe Não Quer Que Eu Case

Uma Thurman é Rafi, uma recém-divorciada de trinta e sete anos que um dia encontra Dave, um rapaz de vinte e tres anos.Os dois se apaixonam, Rafi se sente plenamente realizada mas surge um problema.O sujeito é filho da sua psicanalista Lisa (Meryl Streep) .Esta ao descobrir a coincidencia esconde-a de Rafi que continua relatando além das suas alegrias por estar com o jovem também as particularidades físicas dele (para assombro da mãe).
Lisa no início tenta dissuadir o filho de um romance com uma mulher que além de ser mais velha não é judia.E aí o lado controlador da “mãe-judia”aflora e se mostra maior do que o da psicanalista.
A despeito das objeções da mãe Dave continua seu relacionamento com Rafi, que começa a sentir-se um pouco insegura quanto à durabilidade do caso amoroso.Pois ela quer ter filhos e acha que Dave é imaturo demais pra encarar uma responsabilidade destas.
A vida sexual dos dois vai de vento em popa, e nunca antes Rafi havia tido tanta satisfação mas isso não parece ser o suficiente para manter o futuro do relacionamento.
Está exposto o tema de Terapia do Amor (Prime), filme de Ben Younger (sobrenome sugestivo), com a maravilhosa Thurman no papel principal.E é bom ve-la novamente num filme em que não apareça lutando, fazendo acrobacias mirabolantes como em Kill Bill I e II.
Incrível como o filão desse tipo de comédia romantica não se esgota nunca.Aqui o que a primeira vista pode parecer uma história banal e já explorada pelo cinema e televisão mostra que não existem assuntos que não possam ser abordados pela milésima vez desde que haja um olhar diferente ou um elemento novo na forma de contar a história.Não existem as “histórias-clichê”mas apenas formas convencionais que acabam empanando a real riqueza de certas situações.
Mas o que há de novo em Terapia do Amor que justifique esta tese?Quais características do filme fazem com que seja tão interessante, engraçado e com um frescor das melhores comédias romanticas?
Primeiro, o assunto pode não ser original mas eu não me lembro de muitos filmes que abordem a diferença de idade entre uma mulher beirando os quarenta e um jovem chegando aos trinta.Segundo, os personagens do filme estão numa situação que reflete bem algo que ocorre em nossos dias.Mulheres com mais de trinta, divorciadas, com um emprego estável (Rafi é fotógrafa de moda), abertas a novos relacionamentos não necessariamente com homens da mesma idade.
Na verdasde eu não sei porque esse filme é tão bom.Só sei que é bom e a Uma Thurman é maravilhosa.E quem quiser que conte outra.
Thursday, September 07, 2006
Rastros Indeléveis

O filme “Rastros de Ódio”, de John Ford, está completando cinquenta anos.Muitos o consideram o mais importante faroeste de todos os tempos.Talvez seja mesmo mas eu ainda o coloco ao lado de “Rio Bravo”, de Howard Hawks e “O Homem que Matou o Fascínora”, também de Ford.
A comemoração pelo cinquentenário vem com o lançamento de uma nova cópia em DVD, mais um disco extra com documentários e um pequeno “making of” feito na época em branco e preto.
Em 1956 os principais envolvidos no projeto – John Ford e John Wayne – já eram nomes referenciais em suas áreas de atuação - um como diretor e o outro como ator.Ford havia ganhado um Oscar de melhor diretor (por The Grapes Of Wrath) e outro filme dirigido por ele havia vencido o premio de melhor filme ( “How Green Was My Valley”, 1941) vencendo produções hoje consideradas superiores como “Citizen Kane”e “The Maltese Falcon”.
“Rastros de Ódio” é um dqueles filmes míticos com admiradores incondicionais que passam a vida analisando cena por cena, descobrindo significados, fazendo analogias que acabam sempre provando por a+b a riqueza de cada aspecto que envolve a trama, os personagens, os atores e os que puseram o projeto “em pé”, os responsáveis por ele: diretor, produtor e até o dono do estúdio.E na maioria das vezes eles tem razão no seu culto pois filmes como “Rastros de Ódio”ou “Um Corpo Que cai”, “Casablanca”, “E O Vento Levou”, “Cantando na Chuva”, “Fellini Oito e ½” e tantos outros são a prova do que se pode chamar de “excelencia cinematográfica”.Filmes que são o ponto alto não só na carreira de seus diretores como também ápices artísticos da história do cinema.
E com o tempo acabamos descobrindo certas nuances na história que haviam passado despercebidos.Além, é claro, da leitura de um ou outro autor que se dedique à crítica cinematográfica que possa jogar luz a algum detalhe que nós, leigos, não percebemos à primeira vista, ou mesmo à segunda.
A parceria Ford / Wayne foi bastante profícua..A maioria deles rodados em monument valley, o cenário ideal para as grandiosas histórias de John Ford.As cavalgadas em alta velocidade, fugindo dos índios, as dificuldades que endureciam mais ainda os “caras durões”típicos do oeste selvagem americano, aquele da época da colonização em que o lema era “matar ou morrer”(ou no mínino ficar sem o “escalpo”).
Uma época em que os homens eram homens beirando a animalidade, a grosseria era a regra e às mulheres restavam os serviços domésticos ou a “vida fácil” dos sallons, em meio à jogatina e aos tiros, brigas e canecas de cerveja atiradas pra todos os lados, ao som do indefectível pianinho de manivela.
Os amplos espaços de Monument Valley, a imensidão inabitada e perigosa era a metáfora perfeita da alma dos “homens-do-oeste” vividos quase sempre por Wayne.Solitário, inóspito, indomável e cheio de incógnitas, um cenário em que muitos iriam procurar paz e sossego ou uma nova chance de recomeçar numa nova terra.Mas também, esta mesma terra vasta poderia por a perder as esperanças e as vãs tentativas de construção do “sonho americano”desbravador de novas terras.Em Monument Valley o homem confronta duas naturezas, a que o circunda e a que ele traz dentro de si.
Não há uma tradução correta para o título original “The Searchers”.Talvez “Os Procuradores”?Não, Procurador é outra atividade.”Os Buscadores”?De jeito nenhum.
Porque é disso que o filme trata.Uma tropa de busca se forma para resgatar as duas moças – na verdade, uma adolescente e outra ainda menina – que sobreviveram ao ataque comanche à casa em que viviam com seus pais mortos pela tribo comandada pelo sanguinário chefe “Scar”.
Mas a pequena tropa logo fica reduzida ao misterioso e irascível Ethan (John Wayne) que voltou para reencontrar seu irmão Aaron e sua família depois de haver lutado na guerra da Secessão.E Martin Pawler, o descendente de índios que fora adotado por Aaron e vivia como um membro legítimo da família.
Ethan retorna de seu auto-exílio com cara de poucos amigos.Na verdade sua personalidade e o que lhe sucedeu depois da guerra ficará uma incógnita não só para seus familiares mas também para nós espectadores.
Fica a impressão de haver uma história anterior a que estamos assistindo.Ethan não voltou pra junto dos seus logo depois de finda a batalha.Teria ficado vagando pelo deserto?Teria entrado em crise por conta das atrocidades que viu e viveu?Ethan não se dá bem com seu irmão, parece não se sentir bem vindo ali.E um pouco antes da tropa de busca se formar a primeira vez para tentar encontrar gado roubado pelos índios, Martha, a cunhada de Ethan retira e desamassa com carinho um casaco que dará e ele para a jornada.Teria ela e Ethan tido um romance antes da guerra?Será que ela se casou com Aaron mesmo amando Ethan que sem dar notícias durante tanto tempo provavelmente foi dado como morto fazendo com que aceitasse a proposta do irmão dele (situação, aliás, que se repete mais tarde entre os jovens Martin e Lucy)?
Outro dos assuntos do filme é o racismo de Ethan para com Martin.Logo de cara quando os dois se conhecem Ethan faz questão de enfatizar o seu desgosto pela presença de Martin à mesa e mais tarde durante a perseguição a Debbie( a garota sequestrada por Scar) ele desdenha do ímpeto de achá-la que Martin apresenta como sendo algo sem justificativa já que eles não eram parentes de sangue.O que não impede que num ato de generosidade Ethan depois de toda a jornada com Martin pelo deserto lhe deixe todos seus bens se algo lhe acontecesse.
Depois de muitos anos Ethan e Martin encontram Debbie.Ela já não é mais uma garotinha, é a linda Natalie Wood e não parece disposta a deixar a tribo que agora chama de “seu povo”.Ethan se revolta e chega a quase atirar nela pelo que identifica como sendo uma desfeita e uma traição à sua origem americana.Mas, assim como ocorreu com Martin, Ethan salva Debbie e a entrega não à sua família que não mais existe mas à “família americana”.O mundo de onde ela saiu.
Ethan, cumprida a sua tarefa, não se junta aos outros na alegria pela volta da jovem, apenas se afasta lentamente em direção ao oeste e ao cenário inóspito, metáfora da sua alma atormentada pelo passado de tragédias e decepções.Ethan não pertence à vida em família, pertence ao deserto.
Grande parte das imagens de “The Searchers” lembram pinturas.O tratatamento dados às cores, à iluminação, a disposição dos atores em cena, toda a composição visual lembra muito a de certos pintores.
Tratamento esse que foi realçado pela restauração digital.O filme caba passando a impressão de ter sido sido feito ontem e não há cinquenta anos.