Sunday, December 31, 2006

Cavalos Selvagens


O que faz um filme ser um sucesso grandioso ou um retumbante fracasso?Juntar um punhado de nomes famosos é o suficiente para o exito ou apenas uma armadilha que não salvará a produção do cadafalso?No caso de “The Misfits”(Os Desajustados), de John Huston, realizado em 1961, a presença de ícones do cinema americano, Marilyn Monroe, Clark Gable, Montgomery Clift , não foi o bastante e o filme foi detestado pelo público.Mas seria ele assim tão ruim ao ponto de justificar esse desprezo popular?De maneira alguma.”The Misfits”’é um dos grandes filmes de Huston, com soberbas atuações de seus protagonistas.

Roslyn (uma voluptuosa e cheinha Marilyn Monroe) é uma recém-divorciada desiludida com o amor, consigo mesma e com a vida como um todo.Algumas horas, depois de oficializar a separação, ela e sua amiga Isabelle (Thelma Ritter, sempre de pilequinho) vão a um boteco comemorar a libertação de Roslyn, comemoração meio amarga, na verdade, sem muita convicção ou perpectivas positivas.Lá elas encontram o veterano cowboy Gay Langland (nome infeliz para um cowboy machão), (Clark Gable), cansado da vida na cidade, ele quer o mais rápido possível voltar para o campo e sua imensidão onde poderá viver uma vida simples, longe da civilização.Com ele está seu amigo, o viúvo Guido (Eli Wallach) que topa pedir demissão de seu emprego só pra acompanhar Gay nessa fuga.Os quatro encontram-se no bar e em seus desejos de uma nova existencia, se possível em outro lugar.Roslyn e Isabelle acompanham os dois até a antiga casa que Guido havia construído para a vida em comum com sua esposa.Lá fazem uma pequena farra, onde Guido mostra o quanto o desejo pela vida estava nele represado e Roslyn deixa-se levar num balé alcoólico que desperta os hormonios dos rapazes.Ela e Gay acabam se entendendo e resolvem morar ali como um casal recém –casado.Mas Gay precisa ganhar dinheiro e a forma de consegui-lo é capturando cavalos selvagens para que sua carne vire matéria de comida pra cachorro.Isso para horror de Roslyn que, defensora dos pobres e indefesos animais(na verdade, meio que se identificando um pouco com eles), tenta demove-lo até o último momento de cometer essa violencia.Entrementes eles encontram Perce Howland (Montgomery Clift), um cowboy de rodeios que está mais interessado em beber do que em montar (e depois vem a se interessar por Roslyn, claro) e se junta a Gay e Guido na captura dos puro-sangues.

O filme não tem, digamos, um roteiro de estrutura convencional, até porque foi escrito pelo dramaturgo Arthur Miller(na época marido de Marilyn) e talvez aí resida o seu fracasso de público.Há uma enfase grande no texto criando uma atmosfera intimista com um tempo fílmico diferente, mais lento(mas não arrastado), mais reflexivo, do que o usado para prender a atenção do espectador médio do cinema.Sua temática, de certa forma, antecipa um filão que seria explorado por Sam Sheppard vinte anos depois.Mas Huston segura firme as rédeas do seu filme, o que impede que a ação naufrague ou se extenda demais.

Os atores estão estupendos.Marilyn com toda aquela sua fragilidade meio lasciva, que às vezes faz com que queiramos protege-la e outras tomá-la à força(ou roubar-lhe um beijo enquanto dorme, o que Gay faz a Roslyn).Gable desfaz aquela idéia erronea de uma suposta canastrice de sua parte.E o maior exemplo disso é a cena em que, completamente bebado, acha que seus filhos distantes vieram lhe visitar, quando tudo não passa de mero delírio, fazendo-o dar vexame na frente de todos.Montgomery Clift, também mostra toda a sua intensidade como o montador Perce, que também não ve muito sentido na sua vida atual, discordando até das práticas de Gay para ganhar a vida, logo ele, que monta cavalos e touros torturados para que haja o espetáciulo dos rodeios.

As filmagens foram bem conturbadas e o desentendimento geral.Gable reclamava das demoras de Marilyn que sentia-se escudada pelo fato do filme ter sido escrito por seu marido.Chegou até a exigir que Miller diminuísse as cenas do personagem de Eli Wallach por medo que seu personagem fosse ofuscado pelo dele.Depois do término das filmagens Gable chegou a declarar quase ter tido um enfarto provocado por Marilyn, o que acabou acontecendo 11 dias depois, levando-o à morte.”The Misfits”foi seu último filme, e à despeito dos desentendimentos no set e depois com diretor John Huston , Gable deixou claro que aquele havia sido seu melhor desmpenho em toda a sua carreira.

Enfim, um filme cheio de percalços, no fundo bem ao gosto de John Huston, um cineasta que não fugia da briga, antes, a procurava.Filme tortuoso como a alma de seus personagens, que almejam a liberdade, para depois não saberem o que fazer dela.Correm desesperadamente como cavalos selvagens mas sem um destino certo.Apenas pelo refúgio, pelo isolamento de uma civilização cada vez mais bestificada e sem sentido.

Saturday, December 30, 2006

Os Agentes Também Amam


Uma das mais fortes lembranças com relação ao seriado “Miami Vice” é a do seu tema de abertura.Mas nesta versão para o cinema escrita, produzida e dirigida por Michael Mann (o criador do programa de TV) não há sombra de coisa alguma que lembre a série.A não ser os personagens principais, os agentes Sonny Crocket (Colin Farrell) e Rico ( Jamie Foxx).Escolha que ao final se mostra correta pois desvencilhando seu filme do seriado, Mann pode desenvolve-lo visando não só os antigos fãs que a assistiam nos anos 80 (estrelado por Don Johnson e Philip Michael-Thomas) como também à audiencia atual.

No longa, Sonny e Rico tem de se infiltrar no bando de um tal Jose Yero, um traficante de drogas barra-pesada.Acabam descobrindo que Yero é um mero testa de ferro do verdadeiro chefão, Jesus, cujos negócios ilícitos envolvem bem mais do que o tráfico de entorpecentes.Os dois, se passando por experientes negociantes, conseguem acertar um transporte de carga para Yero, seguindo assim o plano para ganhar sua confiança.Coisa que não será fácil pois ele mantém uma pulga atrás da orelha com relação a eles.Ainda mais quando Sonny começa a se engraçar com Isabella(a lindíssima Gong Li), braço direito de Jesus, e sua amante.Ela não sabe que ele é um policial disfarçado e ele não sabe até aonde irá esse caso de amor sobre um fio de navalha.

Tudo isso se passa numa Miami noturna e colorida (como ocorria no seriado), dentro de mansões luxuosas, carrões e lanchas envenenadas mas também em Ciudad Del Este, na Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) onde o contrabando rola solto, a pobreza circunda e o território parece ser de todos e de ninguém mas no fundo pertence apenas ao chefão Jesus.

No começo incomoda um pouco toda a “marra”dos agentes (principalmente Foxx, compenetrado em franzir suas sombrancelhas) mas o filme melhora bastante a partir do momento em que eles se humanizam.Sonny em sua paixão arrebatadora por Isabella e Rico no drama que vive sua namorada e também colega de trabalho, entre a vida e a morte depois de ser alvo de uma emboscada armada por Jose Yero.

Michael Mann acertou a mão mais uma vez e assim como em “Colateral” voltou a utilizar cameras digitais, o que se presta muito bem aos cenários noturnos e de tons super-matizados não só de Miami como também de Ciudad Del Este.

Cores ao máximo, velocidade no limite, vida por um piscar de olhos, esse é o mundo de “Miami Vice”.Mas aquele antigo tema de abertura ainda continua tocando no aparelho de som da minha mente.

Uma Classe de Problemas


O cinema argentino retrata a classe média e a burguesia de seu país como seus pares brasileiros não conseguem.E não conseguem porque até hoje os filmes daqui foram em sua maioria voltados para retratar o extrato mais pobre da população (“Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”,”Central do Brasil”, “Cidade de Deus”).São poucas as exceções a essa quase regra (Walter Hugo Khouri, Luis Sérgio Person, Domingos de Oliveira,Carlos Reichenbah )que começou nos anos 60 com o surgimento do Cinema Novo.Os argentinos tem se notailizado pela representação acurada de sua classe-média, seja no que tem de espúria ( “Nove Rainhas”), hipócrita (“A Menina Santa”) ou enredada em problemas financeiros e emocionais como em “O Filho da Noiva”, de Juan Jose Campanella.

Ricardo Darín é Roberto, um estressado dono de restaurante que administra aos trancos e barrancos, assim como às suas relações pessoais com o velho pai, com a mãe que sofre do mal de Alzheimer e é interna numa instituição, com sua ex-mulher com quem vive às turras, com a filha adolescente e com sua namorada Natalia.A pressão da vida profissional somada às intempéries da pessoal junto com a influencia dos males do cigarro fazem Roberto vítima de um enfarto.

Depois da recuperação, ele resolve mudar sua conduta e toda a sua vida.Decide vender o restaurante e apoiar seu pai num desejo que antes lhe parecia absurdo, o de casar-se no religioso com sua mãe, mesmo depois de 40 anos juntos.Mas apesar da sua disposição em ajeitar corretamente as peças de seu quebra-caeça existencial, as coisas não saem exatamente como ele esperava.E aos poucos ve seu pequeno castelo desmoronando e as pessoas que se importavam com ele se afastando, e tudo por sua própria culpa.

Roberto é um capitalista, vítima do próprio capitalismo.Na Argentina gloalizada é derrotado pela globalização.Seu restaurante, negócio de família, já não consegue competir com outros estabelecimentos nem adquirir os ingredientes corretos para determinados pratos.Seu orgulho o faz rejeitar uma oferta de compra por um concorrente.Seu enfarto o obriga a voltar atrás na sua decisão.”O país vive uma crise”, lhe diz o emissário comprador. “E quando não estivemos em crise?”, responde Roberto, justificando sua recusa em se desfazer da casa aberta por seus pais.

Ricardo Darín novamente deixa impresso na tela (e em nossa memória) sua persona magnetizante, marca típica daqueles atores a quem entregamos nossa atenção na certeza de não sermos decepcionados.É um ator-entertainer, como Robert De Niro ou Dustin Hoffman.Chegamos a gostar mais do personagem pois simpatizamos com quem o interpreta.Torcemos por ele assim como pelo cinema argentino, que continue nos vencendo de goleada num quesito negligenciado por nossos cineastas.

A Volta dos que Não Foram


Martin Scorsese está de volta à velha forma.Bastam poucos minutos de “Os Infiltrados”para a constatação desse fato.Mesmo que seus filmes predecessores (“The Aviator”, “Gangs of New York”, “Bringing Out The Dead”) não tenham sido ruins, ao ve-los ficava uma sensação de ausencia.Scorsese não era mais o mesmo cineasta afiado de “Taxi Driver”, “Raging Bull”, “Afterhours”, “Goodfellas”, títulos que ocupam o seu olimpo artístico.

“Gangs of New York”, um épico sobre a formação da cidade, projeto que o diretor almejava desde a década de 70, teve boa parte de sua história cortada por exigencia do estúdio, o que afetou seu desenvolvimento na segunda metade do filme.Já “The Aviator”, projeto do ator Leonardo Di Caprio, que convidou Scorsese para concretizá-lo, sobre o excentrico milionário Howard Hughes, sofria de uma certa fraqueza no roteiro, e com Di Caprio não convencendo no papel principal.O único destaque foi a atriz Cate Blanchett, que ganhou um Oscar por sua atuação como Katherine Hepburn.

Agora com sua nova empreitada, de 140 minutos, Martin mostra um arrojo e domínio total de todos os elementos do filme.E não seria exagero alçá-lo à condição de seu melhor longa nos últimos dez anos.A história é a seguinte.Frank Costello (Jack Nicholson, soberbo) é um criminoso barra-pesada, manda-chuva do subúrbio de Boston.Ele comanda e aterroriza a todos e ao mesmo tempo forma garotos com a intensão de transformá-los em futuros capangas.Um deles é Colin Sullivan(Matt Damon), que mais tarde se torna sargento de polícia, garantindo assim que as transações ilícitas de Costello sejam sempre bem sucedidas.

Numa outra divisão da força policial, William Costigan ( Leonardo Di Caprio), um membro da academia aspirante à tira tem suas chances de integrar a corporação reduzidas a apenas uma, como infiltrado no bando de Costello, dando informações sobre uma grande transação envolvendo a venda de microprocessadores à China para a fabricação de mísseis, que finalmente possibilitará a prisão do bandido.

Costigan é o infiltrado da polícia na organização criminosa.Sullivan é o do bando criminoso dentro da polícia.A partir do momento em que as duas organizações descobrem que há um intruso em seu meio começa a caçada.Mas entrementes Costigan descobre que Costello também pode ser um informante, e do FBI, o que explicaria o porque de sempre sair ileso em todas as tentativas de prisão efetuadas pela polícia.

Os sinais estão trocados, os policiais são grosseiros e agem como os marginais, e o marginal, gosta de ópera e tem hábitos refinados.Costigan, o informante da polícia vem de uma família cheia de problemas com a lei e Sullivan, um dos melhores quadros da força policial foi formado às custas do submundo do crime.

Jack Nicholson está está estupendo no papel de Frank Costello.Ao contrário de suas últimas aparições meio caricatas, aqui ele mostra toda a sua grandiosidade e compõe um dos mais abomináveis vilões do cinema contemporaneo.Sua voz é daquelas que fazem uma criança querer dormir de luz acesa por um bom tempo.Nicholson torna-se candidatíssimo a mais uma indicação ao Oscar (e se isso acontecer será um dos favoritos a ganhá-lo pela quarta vez).Leonardo Di Caprio também se redime de sua fraca atuação em “Aviator” e finalmente convence como “young-tough-guy”.Chegamos a nos compadecer com os seus sofrimentos físicos impingidos por Costello a fim de testar sua lealdade.E há tempos não se via um personagem tão cínico e odioso quanto o de Matt Damon.O típico iceberg ambulante, audacioso mesmo quando corre o risco de ser desmascarado.

Novamente os grandes clássicos do rock pontuam o filme (“Gimme Shelter”, dos Rolling Stones, “Well Well Well”, de John Lennon) mas não tanto como em “Goodfellas”ou “Casino”.Em certos momentos o silencio é mais pesado do que qualquer guitarra, baixo e bateria.

E a escolha do título em portugues mostrou-se ao final acertada.”Os Infiltrados”, dando ênfase a outro aspecto da história,é um bom substituto ao original “The Departed”, algo como “os desaparecidos”ou “os falecidos”, expressão usada correntemente em funerais americanos para nomear “os que se foram”.

O filme é tão bom que nem parece um “remake”, do filme chinês “Infernal Affairs”, dirigido por Siu fai mak.

“Os Infiltrados”certamente receberá indicações ao Oscar no ano que vem e tem grandes chances de levar os principais premios (filme, diretor, ator) e se isso acontecer será a prova, pelo menos no caso do diretor Martin Scorsese, de que a justiça tarda mas não falha.

Um Futuro Incerto


A década de 60 foi um período riquíssimo para o cinema brasileiro.Talvez possa-se considerá-lo como o auge em criatividade e diversidade de títulos.Havia o grupo de cineastas representativos do chamado “Cinema Novo”(Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Jr., etc.),todos tendo como base o Rio de janeiro, apesar de nem todos serem cariocas.Haviam os que ambientavam seus filmes no Rio mas não faziam parte do grupo (Roberto Farias, J.B. Tanko, Domingos de Oliveira) e havia os cineastas paulistas, não alinhados em movimento algum, cada um deles com sua independencia não só em relação ao Cinema Novo como também entre si.

Alguns deles: Walter Hugo Khouri ( “Noite Vazia”, “O Corpo Ardente”), Roberto Santos (“O Grande Momento”, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”), José Mojica Marins e seu alter-ego Zé do Caixão (“À Meia-Noite Levarei Tua Alma”, “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”) e Luis Sérgio Person (“São Paulo S/A”, “O Crime dos Irmãos Naves”).

“São Paulo S/A” foi lançado em 1965, portanto um ano depois do golpe militar que instituiu a ditadura.Ainda não vigia a censura iniciada a partir de 1968, com o AI-5, o que significa que os artistas ainda podiam se expressar com uma certa liberdade.

O filme conta a história de Carlos (Walmor Chagas), um metalúrgico empregado da Volkswagen, classe média, materialista, sem ilusões romanticas.Carlos mantém um acordo com seu amigo Arturo (Otello Zelloni), que indicado por ele, fornece peças de reposição para a empresa.Um dia, o esquema é descoberto e Carlos, demitido.

Paralelo à sua vida profissional, a pessoal também não é muito estável.Carlos namora Ana ( Darlene Glória), uma loira linda e sedutora, que mais do que ficar com ele, quer mesmo é curtir a vida sem compromissos, seja com quem for.Ela o abandona e ele encontra Ilda.Intelectual e hedonista, se envolve com Carlos mesmo sabendo que o caso não duraria muito.A incompatibilidade de interesses leva-os à separação.Carlos era fútil e ignorante demais para ela.

Depois surge a doce Juliana (Eva Wilma), moça de família, que não se entrega a ele facilmente, ao contrário do que esperava.Pois para si as mulheres eram todas iguais, e os homens também.A recusa dela acaba fazendo com que o interesse dele aumente cada vez mais a ponto de aceitar o casamento.Eles se casam, tem um filho, Carlos começa a trabalhar na empresa recém inaugurada de Arturo, que consegue ascender no ramo industrial por meio de propinas e outras maracutaias.

Carlos não é feliz,sente-se farto de tudo e de todos, do trabalho, de Juliana, das obrigações como pai e como empregado.Age não por convicção simplesmente segue as regras de um jogo que o entedia.E há a cidade de São Paulo, com seu progresso, suas imposições, a necessidade de ganhar dinheiro, de falar ingles, de arranjar uma amante, de travar relações com pessoas intragáveis.Carlos sente-se esmagado, a cidade o cerca por todos os lados, a selva de concreto por onde ele perambula sem direção certa, como que perdido ou querendo se perder em meio às ruas e passantes.

Chama a atenção nas imagens da cidade nos anos 60, como certas características continuam atuais.A pobreza nas praças, os pregadores evangélicos gritando, a catarse da vida noturna.São Paulo já era uma metrópole e já não atendia a toda a população em suas necessidades básicas.E no entanto ela é bonita.E o preto e branco é perfeito para retratar essa história pois integra tudo e todos num só cenário.As pessoas, os carros, prédios, todos fazem parte do cenário, todos são a cidade de São Paulo.

Mas Carlos quer ir embora, quer deixar a cidade.Rouba um carro e some, sem destino, preocupado apenas em fugir.Abandona o carro no meio de uma estrada de terra e pega carona num caminhão.Contudo para o seu azar o veículo o leva de volta para o lugar de onde ele havia fugido.A cidade o traga, o puxa de volta como um ímã, mesmo que ele não queira.Ve-se forçado a recomeçar, a aceitar, a se resignar com sua situação.

“São Paulo S/A”apresenta influencias tanto da “Nouvelle Vague” quanto do neo-realismo italiano ou do cinema de Antonioni.A história é contada de forma não linear, descontínua, em flash-backs que se intercalam com o momento presente de Carlos.Sabe-se o que viveu e o que resultou de seu passado.Mas o seu futuro (assim como o da cidade de São Paulo) é totalmente incerto.

Wednesday, December 27, 2006

O Último Ato


“A Última Noite”, último filme do diretor Robert Altman, morto este ano, ironicamente (ou talvez nem tanto) é sobre a morte.Não apenas pela presença de um cadáver entre os personagens (algo frequente nos filmes do diretor) mas por todas as ações e ocorrencias estarem sob o signo da “indesejada das gentes”.A morte surge como o fim de um ciclo, o fim da existencia, seja de uma vida humana ou de um programa de rádio.

“A Prairie Home Companion” (algo como “o companheiro da pradaria”) é o título original do filme e do show radiofonico em questão, que será apresentado pela última vez visto que o prédio do auditório de onde é transmitido será posto abaixo, dando lugar a um estacionamento.Portanto, aquele tradicional show de música country está às vésperas de sua morte, da extinção.Não apenas o programa em si mas também o estilo de entretenimento que representa.Ninguém mais põe no ar shows como aquele nesta época em que talk-shows e tocadores digitais de música tomaram conta das programações em detrimento da presença do artista e do público ali, ao vivo.

Morte também do prédio, que será demolido,o Auditório Fitzgerald, assim batizado em homenagem ao escritor F. Scott Fitzgerald, autor do romance “O Grande Gatsby”, que retrata uma época que também se perdeu.E há também a morte humana, um dos artistas veteranos se apresentará pela última vez.

Logo no início somos levados a acreditar que tudo se passa na década de 40.A cena inicial tem um clima de film-noir e um personagem apresenta-se como um ex-detetive, de chapéu e terno alinhado como numa espécie de prólogo do que encontraremos.Ledo engano.A impressão se desfaz e logo vemos que a ação é nossa contemporanea e que o detetive é quem estava meio deslocado em sua indumentária.

Os outros personagens que compõem o quadro são o apresentador bonachão Gerrison Keilor, a dupla de irmãs cantoras Meryl Streep e Lily Tomlim, a filha adolescente de uma delas, aspirante a cantora, que escreve poemas sobre suicídio.A dupla de cowboys Woody harrelson e John C. Reilly, o emissário dos investidores, novos donos do prédio, que está ali só para testemunhar a derradeira exibição.E uma estranha personagem, linda e loira, vestida de branco,um anjo (de verdade) que só se faz visível para alguns, justamente os que ela ainda não veio buscar.

Assistimos à última noite de Prairie Home Companion como espectadores que estivessem no auditório.Vemos os efeitos sonoros típicos do rádio antigo sendo efetuados (a sonoplastia), as confusões que emperram o andamento do programa, encobertas pela fala do apresentador, que tenta passar uma idéia de normalidade enquanto tudo se ajeita.Mas assistimos não apenas ao show como também a seus bastidores.A negligencia de quem já se acostumou ao show-business, a censura contra canções em que o sexo aparece nas entrelinhas, a balbúrdia dos camarins, tudo aquilo que é ocultado para que não retire o brilho do que nos apresentam.Até mesmo a morte de um cantor deve ser relevada pois “the show must go on”.

Robert Altman sempre foi um cineasta do incomodo, escolhia temas que quase sempre embaraçavam ou às pessoas comuns ( “Cerimonia de Casamento”), ou a pequenas comunidades ( “Nashville”, “O Jogador”), ou mesmo a um país inteiro ( “M.A.S.H.”).Expressava-se através da farsa, de um humor não escancarado, ou escrachado, mas cínico.Muitas vezes, negro.Mas de que outro modo poderia ele abordar todo o cinismo de nossa época?

Altman não tinha ilusões com o ser humano.Não era otimista mas sabia que sempre existiria uma brecha para que em meio de tanto egoísmo sobreviesse alguma atitude nobre ou no mínimo bem-humorada.E se essa atitude não salvasse a nossa existencia, poderia ao menos salvar o dia.

Tuesday, December 12, 2006

Um Assunto de Mulheres


Pedro Almodóvar tem sido um dos pouquíssimos cineastas que conseguem manter um nível de qualidade e corresponder "as expectativas que se formam sempre que está perto de lançar um novo trabalho.Tem sido assim desde 1997 com "Carne Trêmula" e todos os posteriores ,"Tudo Sobre Minha Mãe", "Fale Com Ela", "A Má Educação" e agora no mais recente "Volver".E este título é apropriado não só ao que diz respeito à história como também ao reencontro entre o diretor e duas de suas atrizes arquetípicas: Carmem Maura e Penélope Cruz.

Em "Volver" tudo gira em torno da personagem de Cruz, Raimunda, uma faxineira casada com o mau-caráter Paco, um inútil que enquanto ela se acaba de trabalhar vive à frente da TV, vendo o futebol e enxugando latas e mais latas de cerveja - e ainda manda olhares lúbricos à filha adolescente,Paula.Um dia, o cafajeste assedia a jovem e tenta agarrá-la à força, Paula reage e acaba matando-o com um golpe de faca.Raimunda, desesperada, trata de dar um fim ao cadáver para que sua filha livre-se da acusação de assassinato.Mas esse não é o único imbróglio da película.Raimunda tem uma irmã, Sole (vivida por Lola Dueñas), as duas perderam pai e mãe há muito tempo num incêndio.E agora preocupam-se com estado de saúde de sua tia/avó Paula, que já não enxerga, dá sinais de ser vítima da esclerose e a despeito disso vive sozinha.Um dia, morre tia Paula.No velório, onde Raimunda não comparece por estar às voltas com a ocultação do cadáver de Paco, Sole vê o espírito da mãe das duas, Ines.O espírito, de volta do mundo dos mortos, fala com ela e a perseguirá por algum tempo até que a filha resolva acolhê-la em sua casa.

"Volver" fala da "volta", do retorno,no caso, da mãe de Raimunda e Sole, de seu fantasma.Mas este não é o único que retorna de um passado que pensava morto e enterrado.Com o caso do assédio do marido à filha adolescente Raimunda revive tudo aquilo que ela também passou, e que mais tarde se saberá ter tido consequências bem mais sérias.Ela também foi vítima de violência por parte do pai, sua filha paula é o fruto de um incesto.Paco não era o pai biológico da garota.Mas não o revela à filha.

A volta da mãe Ines também trará à tona segredos que colocarão por terra acontecimentos tomados como fatos reais ocorridos no passado.Aquela Ines não é realmente um espírito.Ela simplesmente não havia morrido.A mulher que perecera no incêndio com seu marido era a amante dele, amiga da própria Ines, que como vingança havia provocado as chamas e logo depois fugido sem dar notícias de seu paradeiro às filhas durante todos aqueles anos.

Volta também a esperança de uma vida melhor para Raimunda pois ela agora toma conta de um restaurante que havia sido posto a venda pelo dono seu amigo.Sem o seu conhecimento, ela oferece-se para alimentar uma equipe de filmagem que trabalhava pelos arredores.Contando com a ajuda de suas amigas, ela toca o negócio e vê a chance de mudar de vida.

Pequenas e grandes mentiras perpassam toda a história.As grandes são desvendadas(mas não todas pois o segredo da morte de Paco não é revelado) e as pequenas mostram-se até necessárias para o bom encaminhamento de assuntos problemáticos.
Outra coisa que chama a atenção no filme é que em todas as cenas há algum elemento da cor vermelha no cenário.Vermelho como todos sabem é a cor da paixão, do perigo, do desejo(que ,aliás, dá nome à produtora de Almodovar,"El Deseo").Vermelha é a boca de Penélope Cruz nunca antes tão exuberante e sedutora como aqui.Seu desempenho da mulher forte que toma iniciativa e faz de tudo para proteger sua cria é cativante e emociona, principalmente quando canta para seus fregueses no restaurante retomando uma atividade que sua personagem havia já abandonado há tempos.

Curiosamente não existem personagens homossexuais "Volver".Almodovar deixa claro tratar-se de uma história de mulheres.Mulheres fortes, passionais e lutadoras, lembrando um pouco seu primeiro grande sucesso "Mulheres á Beira de Um Ataque de Nervos".Mas com a diferença de que aqui todas elas se não tem o controle da situação conseguem virar o jogo a seu favor e sem a ajuda da figura masculina, que fica totalmente em segundo plano neste filme que provavelmente dará outro Oscar a seu diretor seja de roteiro ou mesmo de melhor filme estrangeiro.E, convenhamos, ele merece.

Wednesday, December 06, 2006

Além da Superfície


Uma das características que mais chama a atenção no cinema italianao contemporâneo é o grande número de histórias urbanas.É o caso de Como Non Prendere Impegni Stasera, de Gianluca Maria Tavarelli.
Nele, casais beirando os quarenta anos vivem suas crises e encontram-se por acaso entrelaçando suas vidas e frustrações.Existe o impotente cujo problema está diretamente ligado ao abandono pela antiga namorada que era quem ele realmente ama, o professor de universidade que desperta paixões em suas alunas, o divorciado que não assume compromisso com sua amante de há anos e que descobre que tem câncer.E o homem casado que mantém um caso com uma moça bem mais jovem e reluta em abandonar sua esposa,e quando o faz, o destino se encarregará de separá-los.

Este é o tipo de história que poderia se passar em qualquer lugar do mundo, seja Roma, Nova York ou São Paulo.Pessoas insatisfeitas com as escolhas que tomaram há muito tempo encontra-se aos montes.Mas poucos são os que decidem retomar o tempo perdido, isso quando ainda é possível fazê-lo.
A recusa em encarar o mundo e a si mesmos como são é o que une esses personagens.Até o ponto em que acontecimentos forçam-nos a encarar as coisas e as pessoas como são.Seja por um sermão dado na fila do mercado dado por um desconhecido ou um diagnóstico de alguma doença grave.

A vida pode nos dar romance, aventuras, mil passagens das quais nos orgulhamos e gostyamos de relembrar mas no final sempre há um tanto que acaba fugindo ao controle e quando se vê já não parecemos os mesmos do início do caminho.E então começamos a culpar as outras pessoas ao invés de investigarmos nossas condutas.

Sermão de domingo?Talvez, mas certos filmes acabam mostrando-se superficiais apenas na superfície.E este é o caso de Non Prendere Impegni Stasera.

Friday, December 01, 2006

A História sem Fim


E continua o festival de cinema italiano,hoje apresentando Come L'Ombra(Como a sombra), de Marina Spada.Com Anita Kravos, Karolina Porcari e Paolo Pierobon.
O filme começa mostrando a pacata vidinha de Cláudia, proprietária de uma pequena agência de viagens, seu dia-a-dia, as amizades, os namoros rápidos, a rotina não só de seus dias de trabalho como também os diversão.Cláudia frequenta um curso de russo e lá conhece o professor Boris, que substituía um outro mestre ausente.Cláudia e Boris aos poucos interessam-se um pelo outro e começam um quase-romance."Quase" porque Boris não é, digamos, um namorado muito presente.Seu celular está sempre desligado e Claúdia começa a desconfiar de sua atitude.Um belo dia, Boris pede a ela que receba em sua casa por alguns dias uma jovem amiga dele, vinda de Kiev, enquanto ele se ausenta numa daquelas viagens misteriosoas.Cláudia reluta, pois está de malas prontas para encontrar seus amigos que a esperam na Grécia.Mas como ela ainda teria tempo para embarcar e, afinal, era um favor para seu namorado, ela aceita.

O nome da moça é Olga.Alta, loira, corpo escultural, o oposto de Cláudia, que apesar de bonita não tem digamos aqueles atributos físicos que fizeram a fama das italianas como, por exemplo, Sophia Loren ou Claudia Cardinale.No começo, Claudia trata a moça com uma certa impaciência, quase grosseira pelo favor a contra-gosto feito a seu namorado.Mas, aos poucos, vai se afeiçoando a Olga.Elas saem juntas, bebem, divagam sobre a vida.Olga fala italiano e conta seus planos de morar no país.Um dia, como sempre fazia, enquanto Claudia estava no trabalho, Olga sai para mais um de seus passeios por Milão(onde se passa a história) mas não volta pra casa.Claudia espera a noite inteira, depois o dia seguinte todo e nada de Olga aparecer.Ela tenta entrar em contato com Boris mas ele também misteriosamente desapareceu.A esta altura sua viagem a Grécia está perdida, tudo o que lhe interessa é achar Olga ou pelo menos Boris.Logo, o pouco que descobre só faz deixá-la mais confusa e sem ter por onde começar a procurar.

Come L'Ombre é um filme cheio de contradições.Primeiro, a Milão que aparece não é aquela que todos conhecemos, a glamourosa capital da moda e do estilo, mas, sim, a dos prédios antigos e das ruas quase desertas do subúrbio.Além do contraste entre as figuras de Claudia e Olga, a finlandesa que parece uma italiana e uma italiana que não tem nada de típico.Os sonhos de Olga, de viver na Itália são interrompidos de forma brutal pois depois de espalhar cartazes pela cidade ,Claudia descobre que ela está morta.Como morreu?Quem a matou?O filme não nos diz.Assim como também não nos deixa ouvir as conversas de Claudia com seus amigos ou ao telefone celular, cenas do início do filme.E ela também tem seus sonhos frustrados, gostaria de ter filhos "assim como todo mundo" mas ainda não encontrou a pessoa certa,portanto apenas espera.Sua viagem à Grécia também foi por água abaixo,acaba sendo substituída por ida a Kiev,em busca do passado de Olga e talvez também de Boris.

Se ela encontrou algo sobre os dois lá?Não se saberá, pois ficamos sem a resposta.Talvez esse seja o único defeito deste filme sutil e belo.O de deixar tantas perguntas sem resposta.Mas, não se consegue saber tudo, mesmo.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?