Wednesday, October 31, 2007

É Ele e Não é Ele

A vida do cantor e compositor americano Bob Dylan é tão rica que para dar conta de todas as suas facetas sua persona foi divida em sete diferentes personagens.É essa a premissa de "I'm Not There", soberbo filme dirigido por Todd Haynes (de "Velvet Goldmine").Nele, a trajetória de Dylan foi redistribuída entre o cantor folk Jack Rollins (Christian Bale), o fenômeno folk que abraçou o rock em meados da década de 60, Jude Quinn (Cate Blanchett), o ator engajado politicamente Robbie Clark (Heath Ledger), o poeta maldito que se auto-nomeia Arthur Rimbaud (Ben Whishaw), o garotinho negro que foge de uma instituição correcional com um violão de baixo do braço, dizendo-se Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin) e o famoso ex-bandido Billy The Kid (Richard Gere) que vive num povoado longe da civilização e numa época não identificada, onde absurdos acontecem, como, por exemplo, a existência de uma girafa andando livremente pelas ruas.
O grande destaque ficou por conta de Cate Blanchett, que acabou premiada no último Festival de Veneza, como melhor atriz.E seu desempenho como o Dylan de 1966, imerso em drogas, insegurança e incompreensão por parte do público é mesmo algo único no cinema , um desempenho que sem dúvida será lembrado pela sua audácia e precisão.E o encontro, no filme, entre Dylan e os Beatles, é particularmente impagável.Mas também não se pode deixar de dar o devido crédito a Christian Bale, cujo Jack Rollins simboliza a primeira fase da carreira de Dylan.Bale está se notabilizando como uma espécie de "novo Robert De Niro".Suas tranformações físicas e gestuais mostram que ainda se pode esperar alguma entrega apaixonada por parte de jovens atores.

O filme não tem uma narrativa linear, é cheio de idas e vindas, e suas sequências tanto podem ser um primor de produção realista, como quando o garotinho Woody viaja dentro de imundos vagões de trem, como também pode nos puxar para dentro de uma atmosfera de sonho, que claramente remete a filmes como "8 e 1/2" , de Fellini, quando apresenta os dias surreais de Dylan em Londres.

Tudo isso pontuado não só pelas históricas gravações desta lenda viva da cultura norte-americana como também por covers apresentadas por bandas como Sonic Youth, Yo La Tengo e Anthony and The Johnsons.


Cate Blanchett como Jude Quinn

"I'm Not there" é um filme que emociona e deixa a sua marca entre os grandes títulos deste ano e também entre os de todos os tempos.

Friday, October 05, 2007

Tropa de Míopes

É compreensível todo o barulho causado pelo filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, que trata do conflito entre força policial (BOPE) e traficantes cariocas do ponto de vista dos homens-da-lei.Incompreensível é a miopia que acomete parte da crítica “especializada” e pessoas ligadas ao cinema nacional que tacharam o filme de “fascista”, ou que faz “apologia do estado policial”, ou têm “problemas sérios do ponto de vista humanista” e outras bobagens.Assim como também é incompreensível (se bem, que o termo correto seja “inadmissível”) que espectadores reajam com júbilo às torturas praticadas pelos oficiais do BOPE em traficantes e apaniguados.

“Tropa de Elite” é um filme, que como bem notou Carlos Reichenbach, foge de maniqueísmos.Ali não existem mocinhos e bandidos, o capitão Nascimento (vivido magistralmente por Wagner Moura) mesmo sendo um marido cheio de atenções à sua esposa prestes a dar à luz é o mesmo comete as piores atrocidades em nome seja do cumprimento da lei, seja da formação dos homens que no futuro cumprirão essa função.Mas a ambigüidade não é novidade no cinema.Por isso é espantoso ver como tanta gente esclarecida não conseguiu enxergar o que está explícito na tela, que o capitão Nascimento, ao contrário do que disse a diretora Lúcia Murat, não é “heroicizado”, pelo contrário, ele é um comandante que faz de tudo para aparentar uma segurança e uma força que já não possui.Suas crises semelhantes a princípios de enfarto sem motivo clínico aparente, são de ordem emocional.Nascimento “toca o terror” mas sofre de síndrome do pânico.

Quanto às afirmações de que seria um filme “fascista” e defensor das práticas de tortura, nada mais falso.A tortura é mostrada em toda a sua crueldade e monstruosa frieza.E se os membros da tropa são violentos com seus prisioneiros, obviamente, não significa que o filme aprove e defenda esse procedimento.Ninguém nunca tachou de “fascista” filmes como “Laranja Mecânica”, “Táxi Driver”, “Os Bons Companheiros”, “Scarface” e outros em que violentos protagonistas agem cruelmente sem um pingo de remorso e alguns nem sendo punidos no final da história.

Outra acusação é a de que o longa toma exageradamente a posição de defesa dos oficiais do BOPE, mostrando-os como guardiães da moral contra os disseminadores da barbárie na sociedade (os traficantes e consumidores de drogas da classe média).Esses acusadores parecem não ter prestado atenção na seqüência em que no enterro do soldado Neto (Caio Junqueira) a colega de faculdade de Matias ( André Ramiro) diz a ele ter uma informação que o ajudará a encontrar o traficante Baiano, mas apenas o ajudará pela promessa de que nada de ruim acontecesse à pessoa que os levariam a ele, no caso, a namorada do traficante.Matias, então, quebra a promessa que havia feito, permitindo que a moça seja torturada até que revele o paradeiro de Baiano.Ou seja, um comportamento nada “valoroso”.

O impacto de “Tropa de Elite” sobre a inteligentzia tem sido desnorteador.Seu sucesso junto ao público provoca reações de contrariedade em quem nunca conseguiu reconhecimento igual.”Tropa” é filme nacional mais impactante e provocador de debates desde “Cidade de Deus”.E os que não percebem são ou despeitados, ou mal-intencionados ou míopes mesmo.

Thursday, October 04, 2007

Luxo e Luxúria

“O Inocente” (1976) foi o último filme de Luchino Visconti.Baseado num romance do escritor Gabrielle D’Annunzio, conta a história do casal Túlio (Giancarlo Gianini) e Giuliana (Laura Antonelli).Ele, um ateu bom vivant que mantém uma amante e ela uma amorosa e religiosa esposa mas que acaba engravidando de outro homem, o famoso escritor Filipo D’Arborio.Tulio tenta convencer a esposa a abortar o bebê mas ela reluta, objetando que isso seria um crime, indo contra todos os preceitos de sua fé.A expectativa pelo nascimento da criança (o “Inocente” do título) vai aos poucos angustiando Túlio que começa a encarar o fato como uma desgraça iminente.

Visconti faleceu antes da montagem final, o que não significa muita coisa já que ele não era o responsável por ela em outras produções suas.Chama a atenção a sobriedade e a beleza das imagens, seja a dos interiores dos moradias do séc. XIX, seja das formas da atriz Laura Antonelli.Tudo é muito luxuoso e luxuriante, além da insistência em closes que realçam a tensão das situações, principalmente em se tratando do personagem de Gianini, com seu olhar carregado e modos formais.

Tulio e sua esposa

Aos poucos uma certa morbidez vai se adensando conforme Túlio começa a cogitar formas de se livrar da criança, fruto do relacionamento de sua mulher.Note-se que o que o esmaga nem é tanto o fato dela ter tido um caso extra-conjugal mas apenas a existência da criança.Nem Giuliana parece se importar com a amante que o marido mantém..Tulio não tem preocupações morais ou ético-religiosas.Acredita que seu ateísmo lhe confere uma liberdade de ações e escolhas, que acaba resultando numa, segundo ele, “paixão pela vida”.Ou, ao contrário, na liberdade para decidir até pelo abandono dela.



Tulio e sua amante

Visconti parecia se sentir bem a vontade adaptando histórias do sec. XIX, como em "O Leopardo" e "Ludwig", por exemplo.Seu estilo clássico combina bem com as trilhas sonoras retiradas de peças eruditas (Mozart, Lizst).As tragédias morais que encena servem de contraponto ao luxo e à riqueza em que vivem os protagonistas.Já no início do filme percebe-se o amor que Visconti devotava à literatura do oitocentos.Durante os créditos iniciais vemos uma mão idosa folheando um exemplar do livro de D'Annunzio.

Luxo e luxúria na corte


Wednesday, October 03, 2007

Comer Comer

O filme “Nação Fast Food” (Fast Food Nation, 2006), de Richard Linklater tem alguns pontos em comum com “Babel”, de Alejandro Iñarritu.Um deles é a multiplicidade de histórias que se entrelaçam ou apenas tangenciam-se umas as outras.Também aqui há os mexicanos que tentam entrar ilegalmente nos EUA atrás de altos salários em empregos degradantes (no caso, o abate e corte de carne bovina para uma grande fornecedora de uma também grande rede de fast-food).

Mas o filme alicerça-se em dois personagens em especial, um alto-executivo da rede, Don Anderson (Greg Kinnear) e a jovem Amber (Ashley Johnson), funcionária da rede.
Anderson é designado pela matriz para investigar o porquê da carne utilizada para o sanduíche “Big One” estar com altos níveis de contaminação por coliformes fecais – uma terminação que ele demora um pouco a compreender.Já Amber trabalha justamente na filial onde ocorreram os casos de “shit in the meat”.E depois de entrar em contato com um grupo de adolescentes cheios de “consciência política” e estando a par das malfeitorias cometidas pelas empresas envolvidas, decide abandonar seu emprego pois sua consciência não lhe permite que continue trabalhando para os “bad guys”.No núcleo mexicano estão as irmãs Coco (Ana Claudia Talancon) e Silvia (Catalina Sandino Moreno), mais o namorado desta, Raul (Wilmer Valderrama), que vão trabalhar para a empresa fornecedora no trabalho sujo (e sanguinário) da manipulação das carnes.Sendo que Coco acaba se envolvendo com o supervisor-capataz Esteban ( Juan Carlos Serran), um típico garanhão latino que a inicia no mundo do sexo selvagem e das drogas.

Subjacente a tudo isso está a idéia central do filme, a denúncia sobre as redes de junk-food.A rede Mickey’s mesmo aparecendo como concorrente de Mc Donald’s e Burger King apresenta os péssimos procedimentos de que as outras também poderiam ser acusadas, se bem que isso está implícito no filme.Existe uma certa “forçação de barra” ao querer nos convencer o quão negativo é o processo todo de preparação das carnes - como se houvesse um outro processo de abate de animais.Antigamente matadouros funcionavam a céu aberto e as condições de higiene eram bem piores.

Há uma seqüência que mostra um boi sendo morto e tendo suas vísceras retiradas na linha de produção, o que, obviamente, está ali para nos chocar, mas além disso qual a utilidade desse “choque”? Seria talvez fazer com que não comêssemos mais carne bovina por pena dos bichos que serão mortos? Ou que desistíssemos apenas dos hambúrgueres? Mas isso não faria muito sentido pois o procedimento de abate é o mesmo seja para fazer hambúrgueres, seja para venda em açougues.E os frangos? Alguém ainda não sabe como os frangos são abatidos para o consumo humano? E os peixes, coitadinhos, camarões, sardinhas, atuns, todos retirados de seu habitat natural e jogados direto no forno ou na frigideira para o nosso deleite carnívoro.Há uma certa dose de ingenuidade e hipocrisia no roteiro de Eric Schlosser e Linklater.Ingenuidade semelhante a da personagem Amber que junto com seus amigos resolvem libertar o gado confinado que logo estará nos sanduíches da América.mesmo depois da cerca derrubada, os animais se recusam a sair, mesmo aos incentivos dos jovens que perguntam às vaquinhas “don’t you wanna be free”?


A linda Ashley Johnson


O filme é cheio de participações especiais (Avril Lavigne, Patrícia Arquette, Ethan Hawke) mas quem rouba a cena mesmo é Bruce Willis, no papel do dono da empresa fornecedora de carne.Seu discurso sobre a hipocrisia de certas pessoas com relação à comida é o que mais perto da realidade se chega em “Fast Food Nation”.

Tuesday, October 02, 2007

Um Encontro Muito Especial

O que chama a atenção em “Um Dia Muito Especial”(Una Giornata Particulare), de Ettore Scola, logo de cara, durante os primeiros minutos de filme é sua seqüência inicial em que a câmera, depois de varias panorâmicas sobre o conjunto de prédios suburbanos onde se passará a história, adentra um apartamento em especial – o da família de Sophia Loren – pela janela da cozinha e segue a personagem, a própria Loren (Antonietta), sozinha com seus afazeres enquanto a família ainda dorme, numa seqüência sem cortes como se fora um periscópio adentrando os meandros de um mundo à parte.

A história se passa na Itália fascista durante a visita de Hitler a Mussolini.Todo o conjunto residencial é partidário do fascismo e do “duce”, e portanto, acorrem em massa às festividades e cerimônias feitas para celebrar a união dos dois regimes totalitários.E nisso vê-se o quanto o regime fascista teve o apoio da maioria da população – a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.Sophia tem tanto trabalho a fazer em casa que não segue o marido, os filhos pequenos e toda a vizinhança nas festividades.Assim, por um acaso do destino acaba conhecendo Gabriele(Marcelo Mastroianni), intelectual retraído e perseguido como comunista, além de homossexual discreto mas notório a todos que ali vivem, menos à Sophia que por ele acaba se apaixonando.Gabriele é gentil, elegante, engraçado e parece abrir-lhe um novo mundo, dando-lhe a promessa de uma nova existência, longe da grosseria e do trabalho duro e sem reconhecimento de uma típica dona-de-casa, seja ela da Itália Fascista ou deste século 21.

Incrível como Sophia Loren, mesmo já entrada em anos, aos poucos consegue desvestir-se da figura sem encantos da dona-de-casa de avental para com um olhar ou um simples arrumar de penteado transformar-se na mesma “femme fatale” da década de 50.E Mastroiani com seus modos comedidos e frágeis, não lembra em nada o garanhão de “A Doce Vida”.

Vida em Veneza

Um compositor erudito que foge das paixões mundanas, refugiando-se no reino da beleza espiritual, acaba atordoado por essa mesma paixão avassaladora frente à beleza de um loiro adolescente.O cenário onde o drama ocorre é Veneza.Não a cidade plácida cuja beleza se coaduna perfeitamente com os preceitos do compositor mas a cidade ameaçada pela cólera, que tem suas ruas desinfetadas e as informações sobre a doença escondidas pelas autoridades e parte dos próprios moradores, com medo que os boatos afastem os turistas. Esse é o enredo de Morte em Veneza, de Luchino Visconti.Baseado no livro homônimo de Thomas Mann, Visconti substituiu o escritor que protagoniza o livro por um compositor – Gustaf Ashenbach, vivido magistralmente por Dick Bogarde – inspirado no grande Gustave Mahler, cujas composições perpassam todo o filme, com uma tal propriedade que diria-se os temas terem sido feitos especialmente para a produção.

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