Saturday, December 05, 2009
Um Pequeno Grande Filme
Pode um filme sobre a divisão de um espólio chamar a atenção do público?Ou, antes, pode-se chegar a um bom filme com um tema desses?A resposta é "Horas de Verão", de Olivier Assays, com seus elogios da crítica.A história começa com uma morte, a da matriarca de uma simpática e abastada família francesa, cheia de gente culta-bonita-elegante que todos os anos se reúne na casa da mãe para comemorar o seu aniversário.Ela é viúva mas seu verdadeirto amor foi um famoso artista plástico cujas obras encontram-se espalhadas pela casa.Pinturas, esculturas, tudo pertencente a ela e que agora, com a sua morte deverá ir à leilão, assim como também a casa em que morava, por decisão dos três filhos, Adrienne (Juliete Binoche), Frederic (Charles Berling) e Jeremie (Jeremie Renier).
Mas qual seria o conflito oferecido aos espectadores?Nenhum, na verdade.Há um ensaio do que poderia se tornar um desentendimento entre dois dos irmãos sobre o leiloamento da casa que tantas memórias trazia para um deles em especial.Mas tudo logo se resolve com a racionalidade e bom senso típicos do francês.
Mas, e depois? Depois o que vemos são os procedimentos para que esse leilão ocorra, as despedidas dos irmãos que por compromissos de trabalho não se verão por muito tempo, o término de uma história familiar e o recolhimento dos objetos que constituiam essa história que agora existirá apenas na lembrança dos envolvidos.
Mas isso daria um tom pessimista ao filme?De jeito nenhum.O tom do filme é o de que a vida passa, nem sempre conseguimos carregar conosco tudo aquilo que cativamos, mas é inútil querer ir contra a roda do tempo.As gerações se sucedem e os dramas pessoais mostram-se não tão sérios, outros já houveram e outros haverão.
Mas por que assistir a "Horas de Verão"? Talvez pela preciosidade não só do filme "em si", mas por testemunharmos a realização de um filme sobre a inevitabilidade da vida, que não recorre a tragédias passionais tampouco ao riso desbragado, ou apresenta grandes rupturas entre os personagens, tudo aquilo que alguns achariam imprescindível no cinema atual.
"Horas de Verão" é como um pequeno conto sem um final conclusivo, mas que ao invés de nos provocar revolta ou dar uma certa sensação de logro, antes, nos provoca um sentimento de fé na vida, de que tudo passa mas que, ao mesmo tempo, tudo continua.E então percebemos como faz falta esse tipo de filme, aquele que mostra, e diz, tanto com tão pouco.
