Monday, May 11, 2009
Adiante, por favor
O ponto de partida de "Rebobine, Por Favor", de Michel Gondry, até que é interessante.Numa anacrônica locadora exclusivamente de fitas VHS, o esforçado Mike (Mos Def), depois de imcumbido por seu patrão Elroy (Danny Glover) de cuidar do estabelecimento na sua ausência, se vê em apuros quando descobre que seu colega abilolado Jerry (Jack Black), após uma mal-sucedida tentativa de atentado contra a rede elétrica que abastece a cidade, se magnetiza o bastante para desmagnetizar e apagar o conteúdo de todas as fitas de vídeo da locadora.Solução encontrada pelos dois: refazer os filmes, condensando-os em versões toscas de vinte minutos.O que serviu para enrolar momentaneamente uma cliente incauta (a constrangedora Mia Farrow), acaba se tornando o grande sucesso do bairro, logo tomando toda a cidade, fazendo com que Mike e Jerry mal consigam dar conta de todos os pedidos por suas versões pessoais dos clássicos do cinema.
Pois bem, como já foi dito, nada mais anacrônico do que uma locadora que só trabalha com VHS, quando o suporte digital caiu há tempos no gosto popular.Da mesma forma, nada mais estranho do que pessoas que insistem em alugar apenas filmes em VHS.Note-se que na tal locadora, a Be Kind Rewind, só vemos aparelhos em desuso, ultrapassados, como uma caixa registradora que nem mesmo seu funcionário sabe como funciona.O próprio prédio está condenado e sofre pressões dos órgãos municipais para que seja fechado, pois a sua existência ali atravanca o processo "natural" de modernização urbana.E é isso que Elroy e seu pupilo Mike querem evitar, além de manter viva a memória de um tal músico de jazz que teria nascido naquele local.
O que encontramos aqui é a luta entre o novo e o velho, a paixão pela arte, simbolizada pelo analógico, contra a frieza representada pelo meio digital (se bem que a digitalização foi responsável pelo resgate e restauração de vários filmes que se perderiam sem o auxílio dessa tecnologia, mas, enfim).
O filme, então, propõe que o importante não são os filmes, mas a lembrança que deles nos fica.Por isso, ninguém se importa em assistir a uma versão de vinte minutos de um filme já visto como "Os Caça-Fantasmas", por exemplo, contanto que contenha aquela determinada sequência predileta.Seguindo essa premissa, "Psicose", de Hitchcock, poderia ser reduzido só à sequência do assassinato de Janet Leigh no chuveiro, "Casablanca", apenas à parte final na pista do aeroporto, "Indiana Jones" à perseguição entre carrinhos dentro da mina, etc.
Por isso os espectadores não se importam e até gostam de participar dessas novas versões e de verem-se ali na tela, caracterizados como seus personagens favoritos.
Singelo, não? Acontece que quando não se dá a devida importância à arte, e às escolhas do artista, está dado o primeiro passo rumo à sua extinção.Nem todos tem o talento de um Orson Welles, ou de um John Ford, e relativizando o trabalhos desses artistas apenas para valorizar certos momentos impressos na nossa memória estamos sendo injustos e mesquinhos.
O que começou com uma boa premissa acaba como um pastiche banal, com piadinhas que não são dignas nem de um programa dos Trapalhões.