Tuesday, October 02, 2007
Um Encontro Muito Especial
O que chama a atenção em “Um Dia Muito Especial”(Una Giornata Particulare), de Ettore Scola, logo de cara, durante os primeiros minutos de filme é sua seqüência inicial em que a câmera, depois de varias panorâmicas sobre o conjunto de prédios suburbanos onde se passará a história, adentra um apartamento em especial – o da família de Sophia Loren – pela janela da cozinha e segue a personagem, a própria Loren (Antonietta), sozinha com seus afazeres enquanto a família ainda dorme, numa seqüência sem cortes como se fora um periscópio adentrando os meandros de um mundo à parte.A história se passa na Itália fascista durante a visita de Hitler a Mussolini.Todo o conjunto residencial é partidário do fascismo e do “duce”, e portanto, acorrem em massa às festividades e cerimônias feitas para celebrar a união dos dois regimes totalitários.E nisso vê-se o quanto o regime fascista teve o apoio da maioria da população – a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.Sophia tem tanto trabalho a fazer em casa que não segue o marido, os filhos pequenos e toda a vizinhança nas festividades.Assim, por um acaso do destino acaba conhecendo Gabriele(Marcelo Mastroianni), intelectual retraído e perseguido como comunista, além de homossexual discreto mas notório a todos que ali vivem, menos à Sophia que por ele acaba se apaixonando.Gabriele é gentil, elegante, engraçado e parece abrir-lhe um novo mundo, dando-lhe a promessa de uma nova existência, longe da grosseria e do trabalho duro e sem reconhecimento de uma típica dona-de-casa, seja ela da Itália Fascista ou deste século 21.
Incrível como Sophia Loren, mesmo já entrada em anos, aos poucos consegue desvestir-se da figura sem encantos da dona-de-casa de avental para com um olhar ou um simples arrumar de penteado transformar-se na mesma “femme fatale” da década de 50.E Mastroiani com seus modos comedidos e frágeis, não lembra em nada o garanhão de “A Doce Vida”.