Thursday, October 04, 2007
Luxo e Luxúria
“O Inocente” (1976) foi o último filme de Luchino Visconti.Baseado num romance do escritor Gabrielle D’Annunzio, conta a história do casal Túlio (Giancarlo Gianini) e Giuliana (Laura Antonelli).Ele, um ateu bom vivant que mantém uma amante e ela uma amorosa e religiosa esposa mas que acaba engravidando de outro homem, o famoso escritor Filipo D’Arborio.Tulio tenta convencer a esposa a abortar o bebê mas ela reluta, objetando que isso seria um crime, indo contra todos os preceitos de sua fé.A expectativa pelo nascimento da criança (o “Inocente” do título) vai aos poucos angustiando Túlio que começa a encarar o fato como uma desgraça iminente.Visconti faleceu antes da montagem final, o que não significa muita coisa já que ele não era o responsável por ela em outras produções suas.Chama a atenção a sobriedade e a beleza das imagens, seja a dos interiores dos moradias do séc. XIX, seja das formas da atriz Laura Antonelli.Tudo é muito luxuoso e luxuriante, além da insistência em closes que realçam a tensão das situações, principalmente em se tratando do personagem de Gianini, com seu olhar carregado e modos formais.
Tulio e sua esposaAos poucos uma certa morbidez vai se adensando conforme Túlio começa a cogitar formas de se livrar da criança, fruto do relacionamento de sua mulher.Note-se que o que o esmaga nem é tanto o fato dela ter tido um caso extra-conjugal mas apenas a existência da criança.Nem Giuliana parece se importar com a amante que o marido mantém..Tulio não tem preocupações morais ou ético-religiosas.Acredita que seu ateísmo lhe confere uma liberdade de ações e escolhas, que acaba resultando numa, segundo ele, “paixão pela vida”.Ou, ao contrário, na liberdade para decidir até pelo abandono dela.
Tulio e sua amanteVisconti parecia se sentir bem a vontade adaptando histórias do sec. XIX, como em "O Leopardo" e "Ludwig", por exemplo.Seu estilo clássico combina bem com as trilhas sonoras retiradas de peças eruditas (Mozart, Lizst).As tragédias morais que encena servem de contraponto ao luxo e à riqueza em que vivem os protagonistas.Já no início do filme percebe-se o amor que Visconti devotava à literatura do oitocentos.Durante os créditos iniciais vemos uma mão idosa folheando um exemplar do livro de D'Annunzio.
Luxo e luxúria na corte