Wednesday, October 03, 2007

Comer Comer

O filme “Nação Fast Food” (Fast Food Nation, 2006), de Richard Linklater tem alguns pontos em comum com “Babel”, de Alejandro Iñarritu.Um deles é a multiplicidade de histórias que se entrelaçam ou apenas tangenciam-se umas as outras.Também aqui há os mexicanos que tentam entrar ilegalmente nos EUA atrás de altos salários em empregos degradantes (no caso, o abate e corte de carne bovina para uma grande fornecedora de uma também grande rede de fast-food).

Mas o filme alicerça-se em dois personagens em especial, um alto-executivo da rede, Don Anderson (Greg Kinnear) e a jovem Amber (Ashley Johnson), funcionária da rede.
Anderson é designado pela matriz para investigar o porquê da carne utilizada para o sanduíche “Big One” estar com altos níveis de contaminação por coliformes fecais – uma terminação que ele demora um pouco a compreender.Já Amber trabalha justamente na filial onde ocorreram os casos de “shit in the meat”.E depois de entrar em contato com um grupo de adolescentes cheios de “consciência política” e estando a par das malfeitorias cometidas pelas empresas envolvidas, decide abandonar seu emprego pois sua consciência não lhe permite que continue trabalhando para os “bad guys”.No núcleo mexicano estão as irmãs Coco (Ana Claudia Talancon) e Silvia (Catalina Sandino Moreno), mais o namorado desta, Raul (Wilmer Valderrama), que vão trabalhar para a empresa fornecedora no trabalho sujo (e sanguinário) da manipulação das carnes.Sendo que Coco acaba se envolvendo com o supervisor-capataz Esteban ( Juan Carlos Serran), um típico garanhão latino que a inicia no mundo do sexo selvagem e das drogas.

Subjacente a tudo isso está a idéia central do filme, a denúncia sobre as redes de junk-food.A rede Mickey’s mesmo aparecendo como concorrente de Mc Donald’s e Burger King apresenta os péssimos procedimentos de que as outras também poderiam ser acusadas, se bem que isso está implícito no filme.Existe uma certa “forçação de barra” ao querer nos convencer o quão negativo é o processo todo de preparação das carnes - como se houvesse um outro processo de abate de animais.Antigamente matadouros funcionavam a céu aberto e as condições de higiene eram bem piores.

Há uma seqüência que mostra um boi sendo morto e tendo suas vísceras retiradas na linha de produção, o que, obviamente, está ali para nos chocar, mas além disso qual a utilidade desse “choque”? Seria talvez fazer com que não comêssemos mais carne bovina por pena dos bichos que serão mortos? Ou que desistíssemos apenas dos hambúrgueres? Mas isso não faria muito sentido pois o procedimento de abate é o mesmo seja para fazer hambúrgueres, seja para venda em açougues.E os frangos? Alguém ainda não sabe como os frangos são abatidos para o consumo humano? E os peixes, coitadinhos, camarões, sardinhas, atuns, todos retirados de seu habitat natural e jogados direto no forno ou na frigideira para o nosso deleite carnívoro.Há uma certa dose de ingenuidade e hipocrisia no roteiro de Eric Schlosser e Linklater.Ingenuidade semelhante a da personagem Amber que junto com seus amigos resolvem libertar o gado confinado que logo estará nos sanduíches da América.mesmo depois da cerca derrubada, os animais se recusam a sair, mesmo aos incentivos dos jovens que perguntam às vaquinhas “don’t you wanna be free”?


A linda Ashley Johnson


O filme é cheio de participações especiais (Avril Lavigne, Patrícia Arquette, Ethan Hawke) mas quem rouba a cena mesmo é Bruce Willis, no papel do dono da empresa fornecedora de carne.Seu discurso sobre a hipocrisia de certas pessoas com relação à comida é o que mais perto da realidade se chega em “Fast Food Nation”.

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