Tuesday, May 01, 2007

Um Filme Iluminado

Em 1959, cineastas franceses promoveram uma revolução no cinema de seu país, que repercutiria influenciando o trabalho de inúmeros outros cineastas em vários outros países.Filmes como “Acossado”, de Jean-Luc Godard ou “Os Incompreendidos”, de François Truffaut faziam a linha de frente do movimento conhecido como Nouvelle Vague.

Pois no continente americano, mais precisamente nos EUA, um outro nome surgia, iniciando um estilo cinematográfico que assemelhava-se ao dos franceses, e em alguns aspectos até os superava no arrojo e novidade.Seu nome era John Cassavetes.Muito mais conhecido como ator (“O Bebê de Rosemary”, “Os Doze Condenados”) do que como diretor, os filmes de Cassavetes nunca foram campeões de bilheteria nem ganharam Oscars, e mesmo hoje não são laureados como deveriam em seu próprio país.Mas se existe alguém que pode ser identificado como o precursor do cinema independente americano como o conhecemos, esse é o homem.Seu primeiro filme, “Sombras”, é justamente de 1959, mesmo ano de “Acossado” e “Os Incompreendidos”.Mas ao contrário destes dois não causou arrebatamento no público de seu país como ocorreu com aqueles na França.



Um elemento importante dos filmes de Cassavetes é a improvisação.Pode-se notar isso em seu primeiro longa-metragem e também em “Faces”, de 1968.Os diálogos fluem como numa conversa informal e os rostos são captados em momentos de descontração ou angústia como que em instantâneos documentais, ou quando percebemos determinada situação com o “rabo-do-olho” enquanto mantemos nosso rosto voltado para outra direção.Seus filmes são quase documentários, a câmera se imiscui num grupo de personagens como alguém que se sentasse à mesa com eles, observando toda a conversa, mas não como um ente invisível.Existem muitos closes, como se a lente quisesse desvendar possíveis vacilações dos personagens (e mesmo dos atores) naquilo que expressam, como que tentando ver em seus olhos se estão mesmo sendo sinceros.Ou ainda, apreendendo toda a vida que deles emana, um olhar, um sorriso, uma gargalhada ou um jeito bêbado.



Em “Sombras” temos a história de três irmãos: Hugh, um cantor de Blues em dificuldades financeiras, aceitando trabalhos em boates de quinta categoria.Bernie, o mais novo, rebelde que só se mete em encrencas junto com sua turma de vadios barra-pesada.E Lelia, linda e perspicaz, não muito convicta de suas aspirações literárias ou mesmo de qualquer outra aspiração profissional ou pessoal.O filme é tão despojado que os atores emprestam seus nomes reais aos personagens (Ben Carruters, Hugh Hurd e Lelia Goldoni).














Hugh Hurd

“Sombras” é um filme iluminado e John Cassavetes um herói.Um idealista, paladino da criação e da liberdade artística, da estatura de um Orson Welles.A ele todo diretor do tal de cinema–indie deveria acender uma vela todas as noites antes de dormir.



Cotação: 10

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