Tuesday, May 08, 2007

Na Teia da Aranha

Em 1986, William Hurt ganhou um Oscar de melhor ator pela atuação em um filme baseado em romance argentino, transposto para o Brasil da época da ditadura militar, apesar das filmagens mostrarem um país que entrava na redemocratização.O filme era “O Beijo da Mulher-Aranha”, dirigido por Hector Babenco e o autor do romance, o argentino Manuel Puig, que também colaborou no roteiro.

O papel que trouxe a Hurt o prêmio foi o do travesti Molina, que divide uma cela de prisão com o ativista político Valentin (Raul Júlia).Os dois são a antítese um do outro.Enquanto Molina refugia-se da dura realidade rememorando e/ou inventando enredos de antigos e glamourosos filmes, Valentin angustia-se mais pela situação em que se encontram seus companheiros também presos do que pela sua própria.Ele prefere manter-se lúcido e alerta às artimanhas da direção do presídio que quer vê-lo delatar seus colegas de ativismo.Já Molina é todo languidez e afetação, exasperando Valentin com uma história de amor de ideologia nazista a qual Molina não dá nenhuma importância, atendo-se apenas ao caso de amor entre seus protagonistas estereotipados, uma cantora de cabaré (Sônia Braga) e um oficial alemão (Herson Capri).A “Mulher-Aranha” do título sai também da imaginação de Molina, que a cria como uma personagem misteriosa que viveria sozinha numa ilha deserta, trazendo colada a si uma imensa teia de aranha.O que Valentin não sabe é que Molina, na verdade, está a serviço da polícia.Foi incumbido por eles de ganhar sua confiança e conseguir informações sobre as atividades da resistência e os nomes nelas envolvidos.

A impressão que tive foi a de ser “O Beijo..” um filme dividido em dois.Há o que se passa dentro da cela, intimista e calcado na relação entre Molina e Valentin, e outro, que acontece nas ruas da São Paulo dos anos 80, numa paisagem meio brega, onde a figura do americano alto e loiro Hurt destoa do restante da população do centro da cidade, baixa e morena.Mas esse estranhamento, aos poucos, torna-se até positivo, quando vemos Hurt contracenando com Milton Gonçalves ou José Lewgoy, e em inglês.Ou quando Hurt fica cara a cara com Nuno Leal Maia.O contraste que surge seria o mesmo entre um marciano e um terráqueo.E esse estranhamento estende-se também à dificuldade de definir o filme.Afinal, ele é americano ou brasileiro?E mais, como uma produção tão híbrida conseguiu cair nas graças dos membros da Academia que acabou indicando-o para os principais prêmios?

Pois este não é um filme fácil.A maior parte do tempo estamos dentro de uma prisão fétida, a ação entre Valentin e Molina quase sempre é interrompida para que o travesti discorra sobre o tal filme imaginário (a história da cantora e do oficial nazista), e só aos poucos nossa simpatia é ganha por ele, com suas tiradas irônicas e sua fragilidade postiça.O Valentin de Raul Júlia comove mais quando, depois de uma diarréia causada por um veneno na comida, entrega-se aos préstimos de Molina, como se fora um menino envergonhado cuidado pela mãe, do que quando se vê nele as marcas da tortura praticada por seus algozes.Aos poucos sua humanidade aflora, substituindo a grosseria e macheza guerrilheira.

A presença de Sônia Braga, pontuando o filme, ora como a cantora Lena, ora como Marta, a amiga que Valentin deixou em seu passado, ou ainda como a “Mulher-Aranha”, acaba ajudando a embaralhar mais um pouco os signos não só do filme mas também da própria participação da atriz nele.A cantora de cabaré é um pouco canastrona e estereotipada (por conta da imaginação de Molina) e a amiga de Valentin, Marta, surge com uma cabeleira no estilo “Gabriela”.Aliás, a estadia de Sônia nos EUA parece ter apagado um pouco daquela espontaneidade que exibia nas telenovelas dos anos 70.Sua atuação passou a ser mais contida, mais fria, envolta numa técnica que mais a “engessou” do que ajudou a canalizar seu potencial artístico.A soberba atuação de William Hurt tem momentos poéticos.Molina exibe uma altivez, agindo como uma lady, uma Grace Kelly em busca de seu Cary Grant, ou uma deusa diáfana em meio à sordidez da clausura hedionda.

E o filme? E Babenco? Bem, o diretor não é conhecido por ser ousado.Babenco é um cineasta conservador, que busca apenas a beleza, e isso já seria o suficiente.E ele sabe como encontrá-la.Se a história é feia e suja, faz-se o filme mais belamente feio e sujo que se consiga.Com o sucesso de “O Beijo...” , sua carreira norte-americana deslanchou e ele fez “Ironweed”, com Jack Nicholson e Meryl Streep, e depois “Brincando nos Campos do Senhor”, filme grandioso mas pouco lembrado.



Molina (Hurt) e Valentin (Julia) dividem a cena

Ao final, o que fica é a sensação de que “O Beijo da Mulher-Aranha” é um filme a ser visto e revisto, redescoberto, pois não se revela logo de cara nem quando o assistimos a primeira vez.Em perspectiva, vinte e dois anos depois de seu lançamento, ele ainda mantém-se enxuto e pronto para ser reavaliado, sem medo de mostrar imperfeições e as marcas da velhice, aquelas que tanto angustiavam ao personagem Molina.

Cotação: 7


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