Thursday, May 03, 2007
Cinema à Italiana

Alguma coisa muito interessante acontece no cinema italiano.Duas amostras disso são “Ida e Volta” (Andatta + Ritorno), de Marco Ponti e “Após a Meia-Noite” (Doppo Mezzanotte), de Davide Ferario.O primeiro, de 2004, conta a história de Dante (Libero de Rienzo), jovem que trabalha como office-boy, de bicicleta pela cidade de Turim, vive em apertos financeiros, é louco pelo Nirvana e acaba jurado de morte por estar em dívida com um agiota barra-pesada que promete lhe tirar a vida se ele não saldar sua dívida de 30.000 euros.Já que não consegue o dinheiro Dante resolve fugir numa volta ao mundo que acaba sendo um total desastre.Enquanto isso, uma greve-monstro na cidade acaba impedindo decolagens e pousos no aeroporto, obrigando passageiros e tripulação, e entre estes a belíssima comissária de bordo Nina (Vanessa Incontrada) a se virar para arranjar hospedagem em meio a todos os hotéis lotados de Turim.Ela acaba conhecendo um empregado de hotel que lhe oferece uma pequena habitação num prédio popular, no momento desocupado.Sim, Nina foi parar justo na casa de Dante, que depois da malfadada fuga, retorna e a encontra, linda, e agora sua locatária – e sabendo tudo sobre ele.Dante, então, precisa arranjar o dinheiro a qualquer custo, pois Nina acabou envolvendo-se involuntariamente na história toda, e os dois se envolveram também amorosamente.Já em “Após a Meia-Noite”, de 2002, que também se passa em Turim, os heróis são Martino (Giorgio Pasotti), um solitário vigia do Museu do Cinema da cidade, apaixonado pelos filmes de Buster Keaton, que assiste durante as madrugadas, depois da meia-noite.Martino não fala muito e sua visão de mundo é bem parecida com as das comédias de Keaton.Ele tem uma paixão platônica por Amanda (Francesca Inaldi), funcionária da lanchonete fast-food que todas as noites lhe atende e sempre ao mesmo pedido.Ela, nem um pouco contente com seu dia-a-dia, namora o inconstante Ângelo(Fabio Troiano), que na verdade preocupa-se mais consigo próprio do que com a namorada.Um dia, Amanda investe contra seu patrão na lanchonete, ele chama a polícia e ela, então, torna-se uma fugitiva da lei.E acaba buscando refúgio aonde? Justamente no Museu do Cinema, o mundo à parte em que vive Martino.
Os dois filmes tem algumas coisas em comum além da nacionalidade.Os dois foram filmados em câmera digital e exploram de forma magistral as possibilidades estéticas que essa tecnologia oferece (de um modo inédito, por exemplo, no Brasil).Os dois têm histórias simples mas não simplórias e se não chegam a ser revolucionários, ao menos garantem o envolvimento e consequentemente a diversão do espectador.Além das atrizes serem lindíssimas, o que em cinema já é meio caminho andado para manter presa a nossa atenção – e nisso as italianas são pródigas.
Enquanto eu estava ali na sala escura, comecei a questionar a mim mesmo: por que no Brasil ninguém faz filmes desse jeito? Criativos, com uma liberdade autoral que remete à Nouvelle Vague e ao Cinema Novo (guardadas as devidas proporções, é claro).De qualquer forma, fica a certeza de que o cinema italiano vem sabendo tirar proveito desses novos tempos tecnológicos.En nostro pais os cineastas ainda insistem num jeito caro e lento de produção.Além da insistência em narrativas que oscilam na emulação ora de Almodóvar, ora dos Irmãos Cohen.
Cotação: “Ida e Volta” – 9
“Após a Meia-Noite” - 9