Thursday, May 03, 2007

Cheiro de Queimado

As qualidades do filme “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia são reconhecíveis já no seu início ao nos depararmos com as formas sedutoras da atriz Paula Braun na pele da garçonete de nome impronunciável de tão cafona, segundo o que um pouco mais tarde nos informará o protagonista Lourenço, vivido pelo monocórdico Selton Mello.Ele, um negociante de artigos usados diversos cuja característica principal é a de se interessar por coisas antes inusitadas do que propriamente úteis.

Lourenço é um personagem atormentado, desconfortável no mundo.Tem uma linda noiva mas desmancha o compromisso pois a obrigatoriedade de mantê-lo é para ele exasperante.E, de qualquer forma, sua noiva é mesmo muito chata.Lourenço não tem amigos, agora não tem mulher, mas acaba descobrindo a garçonete, que acabará se tornando objeto de uma obssessão.Ou melhor, sua bunda torna-se sua obssessão.Lourenço não se interessa pela moça, só pela bunda dela.Para ele, seria ideal se pudesse comprá-la, assim como faz com todas as quinquilharias que lhe são oferecidas todos os dias.Algumas ele adquire sem entusiasmo algum.Mas por aquela bunda ele pagaria qualquer preço, por maior que fosse.A moça até que simpatiza com Lourenço, sugere que saiam juntos, mas ele logo descarta essa idéia.Não quer compromisso, não quer se envolver amorosamente, quer apenas a bunda.Só ela interessa.

O escritório de Lourenço começa a ser infestado por um cheiro horrível vindo do ralo do banheiro.Aos poucos, ele acaba atribuindo mil significados ao fato de ser vítima daquele fedor.Começa a achar que o cheiro influi nos acontecimentos da sua vida.Pouco a pouco ele já não se reconhece, começa a agir como que tomado pelos efeitos do cheiro.Para ele, é como se fosse o cheiro do inferno.O filme é baseado no romance de Lourenço Mutarelli, que participa do elenco como o leão-de-chácara de Lourenço (o personagem).

Mas se o filme tem pontos positivos também é possível identificar aspectos negativos.Um deles é um certo ranço herdado de filmes como os dos Irmãos Cohen (“Barton Fink”, por exemplo).Filmes em que a intenção de fugir do comum acaba resultando numa overdose de representações sem nenhum significado.Ou seja, em muito barulho por nada, no caso dos Cohen, e no de Dhalia, num anúncio escancarado de “mamãe, quero ser cult!”.

Mais, a cena em que Lourenço rompe com a noiva depois de um malfadado jantar é puro teatro filmado.E é difícil concluir por que Dhalia optou por esse tipo de tratamento a essa cena em especial.Outra coisa que incomoda é o tom monocórdico-balbuciante de Selton Mello.Esse seu estilo de interpretação é já conhecido e não chegou a comprometer seu desempenho em outros trabalhos.Mas neste filme ele exagera.Mello ganhou um prêmio de melhor ator em um festival mas ironicamente a melhor atuação é a do autor do livro, o amador Lourenço Mutarelli.

Afinal, com esses pequenos defeitos cruciais por que “O Cheiro do Ralo” não é um filme ruim? Primeiro, a história é muito boa.Segundo, os coadjuvantes salvam o filme.Entre eles, a garota junkie Sílvia Lourenço, que terá uma participação-chave no destino do personagem Lourenço.E é claro, a torcida que mantemos para que Paula Braun apareça de novo na tela.Tudo isso faz com que saiamos do cinema até desculpando os excessos de Mello e Dhalia, e com a sensação de que por pouco, muito pouco, não jogamos nosso dinheiro no ralo assistindo a mais um traque do cinema brasileiro.

Cotação: 5

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