Friday, February 09, 2007
O Vencedor Leva Tudo
Nenhum outro filme foi tão crítico e cáustico aos executivos da indústria do cinema do "O Jogador", de Robert Altman.De 1992, ele simboliza bem o momento de crise vivida pelos grandes estúdios, que resultou na venda de alguns deles para empresas japonesas ou na fusão com outras companhias.Sem falar nas demissões e cortes de custos com roteiristas, os primeiros sacrificados.
O personagem central é o executivo Griffin Mill (Tim Robbins), que tem a função de escolher quais histórias serão aprovadas para que se transformem em filmes ou não.Sendo que grande parte delas é recusada e a outra, quase sempre, adulterada pelo próprio Grifin, o que lhe angaria uma legião de desafetos (todos escritores).Em especial um deles, que lhe manda cartões-postais com ameaças de morte.Ao mesmo tempo, Grifin vê seu posto no estúdio ameaçado pela entrada em cena de um outro executivo, Larry Levy (Peter Gallagher), com quem deverá dividir responsabilidades, ou seja, ele perderá um pouco de seu poder, o que poderá resultar numa futura demissão.
Na procura pelo tal roteirista que o ameaça Mill acaba equivocando-se, achando o escritor errado, apesar deste também desejar a sua morte.Durante uma briga, o escritor acaba morrendo, e Mill agora se vê às voltas com uma acusação de assassinato.Ele acaba envolvendo-se com June (Greta Scachi), a linda namorada do roteirista morto, que nem desconfia que Mill foi o responsável pela sua morte.Enquanto isso, as ameaças via cartão-postal não cessam e ele ainda tem de neutralizar a ação de seu rival Levy.
O prestígio de Robert Altman junto à classe dos atores era tão grande que vários astros aparecem em pequenas participações, ou fazendo "figuração de luxo".E os procedimentos de Altman vão contra tudo aquilo que se convencionou, ou, antes, tudo o que se tornou o cinema naqueles anos 90.Um dos personagens critica o estilo "videoclip" que tomou conta da época:"hoje em dia são só cortes, cortes , cortes", e o faz em meio a uma longa tomada inicial sem corte algum.
A sátira à ignorância dos jovens que tomavam assento nos grandes estúdios está clara na sugestão do temível Larry Levy de eliminar os custos com roteiristas, utilizando histórias retiradas dos jornais.A interferências das seesões prévias também é abordada, quando a intransigência de um diretor com relação ao realismo da história do seu longa-metragem cai por terra à má recepção do público na "preview".Ele queria um final pessimista e um filme sem grandes estrelas, e obteve o exato oposto, e concedendo total anuência à decisão do estúdio.
O final feliz de Grifin Mill, que se livra da acusação de assassinato, consegue neutralizar a ameaça de Levy, toma o lugar de seu chefe, e ainda se casa com June, não chega nem a ser pessimista, antes, tem até um certo humor resignado, pois afinal, como disse o diretor purista antes de ser dobrado pelo sistema, a justiça às vezes não triunfa no final, "just because it happens".