Thursday, February 08, 2007
Diário de Filmagem
O cinema não pode ser considerado uma arte autoral como a literatura, a pintura ou a música, que podem ser compostas por uma só pessoa.E a prova disso está no filme "A Noite Americana", de François Truffaut.Com ele, o diretor francês vai contra sua própria antiga posição, em que defendia na virada dos anos 50/60, a "política dos autores" em detrimento ao "filme de gênero".Truffaut havia saído da revista Cahiers Du Cinema e estreado como diretor com "Os Incompreendidos".
Seus heróis eram John Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock, Jean Renoir, cineastas que, segundo ele, haviam imprimido uma marca pessoal em seus filmes, identificando-os e destacando-os do restante dos faroestes e dos filmes de suspense.
Mas com "A Noite Americana", filmado em 1973, ele reconhece o que na verdade é o óbvio.Com a quantidade de pessoas envolvidas no processo de produção de um filme, e com as inúmeras formas de colaboração e de mudanças pelas quais elepassa no decorrer das filmagens, a idéia de "filme-autoral" é inóqua, quando não, ingênua.Um longa-metragem acolhe elementos que tanto podem vir do diretor, do roteirista, do produtor, ou mesmo dos atores.
É claro que que existem cineastas cujos filmes apresentam um toque pessoal, algo que identifica imediatamente o filme com o seu realizador.Sabemos quando se trata de um Fellini ou de um Antonioni ou de um Woody Allen já nos primeiros minutos.Mas ao contrário do que possa-se achar, num filme de Fellini, o roteiro não foi só escrito por ele, a música idem (neste caso responsável era Nino Rota, agora imagine-se um filme de Fellini sem a música de Rota), portanto tudo aquilo que compõe o que se adjetivou de "felliniano", nada mais é do que o produto do trabalho de uma equipe constante, sempre em sintonia com as idéias do diretor.
Em "A Noite Americana", Truffaut nos apresenta a rotina nada enfadonha ou previsível de uma equipe de cinema em plena produção de um Longa.Os contratempos inesperados com o equipamento, os problemas pessoais dos atores, apressão sobre o diretor, de quem todos buscam respostas e liderança, quando sua cabeça está, na verdade, cheia de dúvidas.
Inicialmente um filme sobre um filme sendo feito poderia não sustentar o interesse do público por quase duas horas.O que garante o envolvimento é tom humano dado pelas histórias pessoais dos membros da equipe.Se nos letreiros iniciais e finais, eles são apenas nomes indicativos do "pessoal da técnica", aqui eles ganham rostos, personalidades, mostram suas idiossincrasias, defeitos e qualidades, e acompanhamos tudo como se estivéssemos com eles, fazendo parte daquilo, embuídos naquele mundo à parte onde um outro mundo à parte está sendo engendrado.
Já assisti a este filme inúmeras vezes e sempre renova-se a certeza, por meio das imagens, dos atores e da música primorosa de que Truffaut foi um gênio dentro e fora da Nouvelle Vague.