Thursday, January 25, 2007

Um Filme Muito Louco


“Filme Demência” é a demência da cidade de São Paulo, a demência de quem se mete a fazer cinema no Brasil, a demência de quem já não agüenta mais o jogo sujo e desigual da tal vida em sociedade, uma sociedade de zumbis que pensam viver na tal "normalidade".“Filme Demência” é de 1986. Ao assisti-lo percebe-se como a cidade não mudou muito nestes últimos vinte anos.Mas como mudou o cinema brasileiro!Hoje não há mais espaço para produções transgressoras como esta de Carlos Reichenbach (ou para “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, por exemplo).Filmes de roteiro não linear, cheios de experimentalismos, quebras de andamento, que misturam realidade e delírio, sem concessões, sem o apelo aos telespectadores das novelas da Globo.Não há espaço para produções dessa estirpe.E ninguém no atual cinema brasileiro faz filmes assim, nem mesmo Reichenbach.

O personagem de Ênio Gonçalves é um industrial falido dono de uma fábrica de cigarros. Ele fica sem sua fábrica, sem dinheiro, sem “amigos” e acaba também ficando sem a mulher (a lindíssima Imara Reis).Ao mesmo tempo é assombrado por imagens que não sabe de onde vêm (uma garotinha que surge para ele do nada, a foto de uma paisagem natural que ele, obcecado, tenta descobrir onde fica, e o assédio do diabo (Emílio di Biasi) que quer tomar-lhe a alma dando-lhe a solução de seus problemas.

“Filme Demência” é inspirado no “Fausto”, de Goethe e permeado de outras alusões literárias. É um filme sem pudores, sexuais, artísticos ou de qualquer outro tipo.Aqui o território é livre para a expressão necessária à (in)compreensão do que nos é apresentado.E quem disse que para apreciar um bom filme é imprescindível entendê-lo?Quem disse que é preciso entender uma obra de arte?Quem é louco e quem é são numa cidade como São Paulo?Aqueles que vivem numa rotina programada e imutável ou aqueles que se embrenham na selva semi-iluminada pela luz néon?

“Filme Demência” é um filme-alerta, uma tábua de salvação artística, um filme - manifesto uma tomada de posição, ele se posiciona ao lado da arte e quem dera outros o seguissem.

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