Friday, January 19, 2007

Férias Forçadas


poerema

Quando um filme brasileiro começa a ser muito elogiado eu confesso que fico desconfiado. Isso ocorreu quando li tudo o que foi escrito sobre “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hambúrguer. Todas as avaliações foram elogiosas. De Walter Salles a Juca Kfouri, fez-se ênfase à poesia do filme, à atuação do ator mirim Michel Joelsa no papel principal, ao retrato acurado de uma época de turbulência político-social (o ano de 1970), enfim.E devo reconhecer que eles estavam certos. “O Ano...” é mesmo um ótimo filme. Pode não ser um “grande”, mas é, sem dúvida, ótimo.A história do menino Mauro, o garoto filho de pais engajados na luta contra a ditadura comoveu a todos..Em plena era – Médici, os pais fogem de seus perseguidores e a fim de proteger o filho, enviam-no para o avô, que mora no Bom Retiro, bairro paulistano conhecido por ser reduto dos judeus da cidade.Mauro, é claro, estranha toda a situação.Seus pais tentam tranqüilizá-lo assegurando-lhe que estão apenas saindo de férias e que voltariam quando a copa começasse.

O ano de 1970, todos sabem, é emblemático. Foi quando a seleção brasileira de futebol conseguiu o seu terceiro título de uma copa do mundo.Mauro é louco pelo esporte e espera pelo início da competição, não só pelo evento em si mas também pela volta dos pais como eles haviam lhe prometido.Mas ao deixarem Mauro no prédio do avô, o inesperado acontece, ele lá não está e nem poderá dar abrigo ao neto, pois está morto.Agora Mauro está aos cuidados do vizinho do avô, um velho judeu ortodoxo que não sabe compatibilizar seus hábitos austeros com a sede de atividade de um garoto quem nem seu parente é ( e nem sequer é judeu).Mas mesmo triste e apreensivo pela ausência dos pais acaba se envolvendo com os garotos da vizinhança, e com a menina Hanna, numa amizade antagônica.

O filme é cheio de silêncios em sua primeira parte. Como se espelhasse a cautela do menino num adentrando num mundo desconhecido, que ele vai reconhecendo aos poucos, incerto do que o espera. É um filme em que predomina o cinza, os tons escuros, não há um céu azul, e mesmo a seleção brasileira é vista pela TV em preto e branco ( como, afinal, todos assistiram à copa, na época).Eram tempos de chumbo, de sombras, e a alegria pela performance do Brasil nos campos mexicanos parece estar sob o jugo do olhar do Big Brother Militar.Mas isso não significa que seja um filme amargo ou mesmo pessimista.É apenas o retrato de uma vida em formação e de um país que ainda não acertou todas as contas com seu passado recente (nem com o remoto, diga-se).E a reconstituição do período é melhor do que, por exemplo, a do filme “ O Que É Isso, Companheiro?” , de Bruno Barreto, que se passa apenas um ano antes.Até as cenas externas do filme de Hambúrguer são melhores.

O destaque entre os atores é mesmo das crianças. A garota Hanna e seus amigos, achacados por ela, que lhes vende a oportunidade de olhar as clientes de sua mãe trocando de roupas.Também há Caio Blat, como um estudante esquerdista, numa atuação sem muitos arroubos de interpretação, o que garante a empatia do personagem conosco.Ele não aparece fazendo discursos enfáticos e até esquece da sua condição de fugitivo para disputar uma partida de futebol de botão com Mauro.E atuação de Joelsas como Mauro, sua naturalidade nos faz achar que bastou-lhe apenas ser ele mesmo em cena.De certa forma nos vemos um pouco nele.Quem já não teve um time de futebol de botão, ou foi apaixonado por alguma beldade do bairro, ou teve uma amiguinha com quem vivesse às turras?Há um pouco do diretor Cao Hambúrguer em Mauro, mas também há um pouco de cada um de nós, homens, refletido nele. O medo de perder os pais, seja numa multidão, ou de ser esquecido por eles na saída do colégio, é o mesmo medo de Mauro de que seus pais não voltem das “ férias”.

A tão falada poesia do filme é a poesia da infância, a poesia da saudade, e é claro, a poesia do futebol brasileiro.



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