Friday, January 19, 2007
Família Maluca

João amava Maria que amava Pedro que amava Bastos que amava Lourdes que amava Júlio que amava... Alfredo.Este amava Flávio mas isso não o impedia de sentir-se atraído por Mercedes que dizia estar apaixonada por Zé Carlos mas gostava mesmo era de passar horas na companhia de Sandra.
Cada vez mais temos certeza de que a sexualidade humana é algo complexo, cheia de nuances, tendências para um lado ou para outro, uns são heterossexuais empedernidos, outros homossexuais convictos, outros reprimem sua natureza a todo custo, outros mal conseguem convencer que não o são. Existem heterossexuais que não se consideram gays mesmo já tendo tido relações homoeróticas, e gays que tiveram grandes paixões por mulheres.Uma pessoa pode ser gay ou hetero ou ser hetero com trejeitos de gay ou ser gay e não dar nenhuma pinta disso.Enfim, é cada vez mais difícil tipificar o desejo sexual e o sentimento amoroso ( e isso não é de se estranhar quando até hoje não se consegue definir muito bem nem o que seja o amor ou a amizade).
O filme “C.R.A.Z.Y.”, de Jean Marc Vallée poderia ser descrito como a biografia de um rapaz gay na tentativa da aceitação da sua condição por parte não só de seus amigos e parentes como também por si mesmo. Mas na verdade isso seria muito redutor.Zachary (Marc-Andrè Grondin) desde pequeno gostava mais de “coisas de menina” do que das “de meninos”.Mantinha uma admiração suprema pelo pai, que para ele era uma mistura de super-herói com galã de cinema.Já a relação com a mãe era de confiança e cumplicidade.Só com os irmãos ele não se dava bem.
Zac foi crescendo, na adolescência nutria uma paixão secreta pela prima, mas também sentia o seu olhar atraído pelo namorado dela.A partir daí e durante toda a sua vida ele se dividirá entre uma heterossexualidade auto-imposta (e muito bem sucedida) e sua homossexualidade latente que insistia em se imiscuir em seus sonhos e desejos.Ele se refugiava no amor pela música, e um dos grandes atrativos do filme são os trechos de clássicos do rock, desde o “glitter” e o rock progressivo dos anos 70 ao punk e new wave dos anos 80, vai moldando seu visual de acordo com a época, mas no fundo ele continua o mesmo.
O arrojo do diretor Vallée garante nossa atenção presa do começo ao final, torcendo, rindo, envolvendo-nos nas situações prosaicas ou embaraçosas dos membros dessa família cujas iniciais dos filhos formam a palavra “crazy”.