Saturday, December 30, 2006

Uma Classe de Problemas


O cinema argentino retrata a classe média e a burguesia de seu país como seus pares brasileiros não conseguem.E não conseguem porque até hoje os filmes daqui foram em sua maioria voltados para retratar o extrato mais pobre da população (“Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”,”Central do Brasil”, “Cidade de Deus”).São poucas as exceções a essa quase regra (Walter Hugo Khouri, Luis Sérgio Person, Domingos de Oliveira,Carlos Reichenbah )que começou nos anos 60 com o surgimento do Cinema Novo.Os argentinos tem se notailizado pela representação acurada de sua classe-média, seja no que tem de espúria ( “Nove Rainhas”), hipócrita (“A Menina Santa”) ou enredada em problemas financeiros e emocionais como em “O Filho da Noiva”, de Juan Jose Campanella.

Ricardo Darín é Roberto, um estressado dono de restaurante que administra aos trancos e barrancos, assim como às suas relações pessoais com o velho pai, com a mãe que sofre do mal de Alzheimer e é interna numa instituição, com sua ex-mulher com quem vive às turras, com a filha adolescente e com sua namorada Natalia.A pressão da vida profissional somada às intempéries da pessoal junto com a influencia dos males do cigarro fazem Roberto vítima de um enfarto.

Depois da recuperação, ele resolve mudar sua conduta e toda a sua vida.Decide vender o restaurante e apoiar seu pai num desejo que antes lhe parecia absurdo, o de casar-se no religioso com sua mãe, mesmo depois de 40 anos juntos.Mas apesar da sua disposição em ajeitar corretamente as peças de seu quebra-caeça existencial, as coisas não saem exatamente como ele esperava.E aos poucos ve seu pequeno castelo desmoronando e as pessoas que se importavam com ele se afastando, e tudo por sua própria culpa.

Roberto é um capitalista, vítima do próprio capitalismo.Na Argentina gloalizada é derrotado pela globalização.Seu restaurante, negócio de família, já não consegue competir com outros estabelecimentos nem adquirir os ingredientes corretos para determinados pratos.Seu orgulho o faz rejeitar uma oferta de compra por um concorrente.Seu enfarto o obriga a voltar atrás na sua decisão.”O país vive uma crise”, lhe diz o emissário comprador. “E quando não estivemos em crise?”, responde Roberto, justificando sua recusa em se desfazer da casa aberta por seus pais.

Ricardo Darín novamente deixa impresso na tela (e em nossa memória) sua persona magnetizante, marca típica daqueles atores a quem entregamos nossa atenção na certeza de não sermos decepcionados.É um ator-entertainer, como Robert De Niro ou Dustin Hoffman.Chegamos a gostar mais do personagem pois simpatizamos com quem o interpreta.Torcemos por ele assim como pelo cinema argentino, que continue nos vencendo de goleada num quesito negligenciado por nossos cineastas.

Comments: Post a Comment



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?