Wednesday, December 27, 2006

O Último Ato


“A Última Noite”, último filme do diretor Robert Altman, morto este ano, ironicamente (ou talvez nem tanto) é sobre a morte.Não apenas pela presença de um cadáver entre os personagens (algo frequente nos filmes do diretor) mas por todas as ações e ocorrencias estarem sob o signo da “indesejada das gentes”.A morte surge como o fim de um ciclo, o fim da existencia, seja de uma vida humana ou de um programa de rádio.

“A Prairie Home Companion” (algo como “o companheiro da pradaria”) é o título original do filme e do show radiofonico em questão, que será apresentado pela última vez visto que o prédio do auditório de onde é transmitido será posto abaixo, dando lugar a um estacionamento.Portanto, aquele tradicional show de música country está às vésperas de sua morte, da extinção.Não apenas o programa em si mas também o estilo de entretenimento que representa.Ninguém mais põe no ar shows como aquele nesta época em que talk-shows e tocadores digitais de música tomaram conta das programações em detrimento da presença do artista e do público ali, ao vivo.

Morte também do prédio, que será demolido,o Auditório Fitzgerald, assim batizado em homenagem ao escritor F. Scott Fitzgerald, autor do romance “O Grande Gatsby”, que retrata uma época que também se perdeu.E há também a morte humana, um dos artistas veteranos se apresentará pela última vez.

Logo no início somos levados a acreditar que tudo se passa na década de 40.A cena inicial tem um clima de film-noir e um personagem apresenta-se como um ex-detetive, de chapéu e terno alinhado como numa espécie de prólogo do que encontraremos.Ledo engano.A impressão se desfaz e logo vemos que a ação é nossa contemporanea e que o detetive é quem estava meio deslocado em sua indumentária.

Os outros personagens que compõem o quadro são o apresentador bonachão Gerrison Keilor, a dupla de irmãs cantoras Meryl Streep e Lily Tomlim, a filha adolescente de uma delas, aspirante a cantora, que escreve poemas sobre suicídio.A dupla de cowboys Woody harrelson e John C. Reilly, o emissário dos investidores, novos donos do prédio, que está ali só para testemunhar a derradeira exibição.E uma estranha personagem, linda e loira, vestida de branco,um anjo (de verdade) que só se faz visível para alguns, justamente os que ela ainda não veio buscar.

Assistimos à última noite de Prairie Home Companion como espectadores que estivessem no auditório.Vemos os efeitos sonoros típicos do rádio antigo sendo efetuados (a sonoplastia), as confusões que emperram o andamento do programa, encobertas pela fala do apresentador, que tenta passar uma idéia de normalidade enquanto tudo se ajeita.Mas assistimos não apenas ao show como também a seus bastidores.A negligencia de quem já se acostumou ao show-business, a censura contra canções em que o sexo aparece nas entrelinhas, a balbúrdia dos camarins, tudo aquilo que é ocultado para que não retire o brilho do que nos apresentam.Até mesmo a morte de um cantor deve ser relevada pois “the show must go on”.

Robert Altman sempre foi um cineasta do incomodo, escolhia temas que quase sempre embaraçavam ou às pessoas comuns ( “Cerimonia de Casamento”), ou a pequenas comunidades ( “Nashville”, “O Jogador”), ou mesmo a um país inteiro ( “M.A.S.H.”).Expressava-se através da farsa, de um humor não escancarado, ou escrachado, mas cínico.Muitas vezes, negro.Mas de que outro modo poderia ele abordar todo o cinismo de nossa época?

Altman não tinha ilusões com o ser humano.Não era otimista mas sabia que sempre existiria uma brecha para que em meio de tanto egoísmo sobreviesse alguma atitude nobre ou no mínimo bem-humorada.E se essa atitude não salvasse a nossa existencia, poderia ao menos salvar o dia.

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