Thursday, September 07, 2006

Rastros Indeléveis


O filme “Rastros de Ódio”, de John Ford, está completando cinquenta anos.Muitos o consideram o mais importante faroeste de todos os tempos.Talvez seja mesmo mas eu ainda o coloco ao lado de “Rio Bravo”, de Howard Hawks e “O Homem que Matou o Fascínora”, também de Ford.
A comemoração pelo cinquentenário vem com o lançamento de uma nova cópia em DVD, mais um disco extra com documentários e um pequeno “making of” feito na época em branco e preto.
Em 1956 os principais envolvidos no projeto – John Ford e John Wayne – já eram nomes referenciais em suas áreas de atuação - um como diretor e o outro como ator.Ford havia ganhado um Oscar de melhor diretor (por The Grapes Of Wrath) e outro filme dirigido por ele havia vencido o premio de melhor filme ( “How Green Was My Valley”, 1941) vencendo produções hoje consideradas superiores como “Citizen Kane”e “The Maltese Falcon”.

“Rastros de Ódio” é um dqueles filmes míticos com admiradores incondicionais que passam a vida analisando cena por cena, descobrindo significados, fazendo analogias que acabam sempre provando por a+b a riqueza de cada aspecto que envolve a trama, os personagens, os atores e os que puseram o projeto “em pé”, os responsáveis por ele: diretor, produtor e até o dono do estúdio.E na maioria das vezes eles tem razão no seu culto pois filmes como “Rastros de Ódio”ou “Um Corpo Que cai”, “Casablanca”, “E O Vento Levou”, “Cantando na Chuva”, “Fellini Oito e ½” e tantos outros são a prova do que se pode chamar de “excelencia cinematográfica”.Filmes que são o ponto alto não só na carreira de seus diretores como também ápices artísticos da história do cinema.
E com o tempo acabamos descobrindo certas nuances na história que haviam passado despercebidos.Além, é claro, da leitura de um ou outro autor que se dedique à crítica cinematográfica que possa jogar luz a algum detalhe que nós, leigos, não percebemos à primeira vista, ou mesmo à segunda.

A parceria Ford / Wayne foi bastante profícua..A maioria deles rodados em monument valley, o cenário ideal para as grandiosas histórias de John Ford.As cavalgadas em alta velocidade, fugindo dos índios, as dificuldades que endureciam mais ainda os “caras durões”típicos do oeste selvagem americano, aquele da época da colonização em que o lema era “matar ou morrer”(ou no mínino ficar sem o “escalpo”).
Uma época em que os homens eram homens beirando a animalidade, a grosseria era a regra e às mulheres restavam os serviços domésticos ou a “vida fácil” dos sallons, em meio à jogatina e aos tiros, brigas e canecas de cerveja atiradas pra todos os lados, ao som do indefectível pianinho de manivela.

Os amplos espaços de Monument Valley, a imensidão inabitada e perigosa era a metáfora perfeita da alma dos “homens-do-oeste” vividos quase sempre por Wayne.Solitário, inóspito, indomável e cheio de incógnitas, um cenário em que muitos iriam procurar paz e sossego ou uma nova chance de recomeçar numa nova terra.Mas também, esta mesma terra vasta poderia por a perder as esperanças e as vãs tentativas de construção do “sonho americano”desbravador de novas terras.Em Monument Valley o homem confronta duas naturezas, a que o circunda e a que ele traz dentro de si.

Não há uma tradução correta para o título original “The Searchers”.Talvez “Os Procuradores”?Não, Procurador é outra atividade.”Os Buscadores”?De jeito nenhum.
Porque é disso que o filme trata.Uma tropa de busca se forma para resgatar as duas moças – na verdade, uma adolescente e outra ainda menina – que sobreviveram ao ataque comanche à casa em que viviam com seus pais mortos pela tribo comandada pelo sanguinário chefe “Scar”.
Mas a pequena tropa logo fica reduzida ao misterioso e irascível Ethan (John Wayne) que voltou para reencontrar seu irmão Aaron e sua família depois de haver lutado na guerra da Secessão.E Martin Pawler, o descendente de índios que fora adotado por Aaron e vivia como um membro legítimo da família.

Ethan retorna de seu auto-exílio com cara de poucos amigos.Na verdade sua personalidade e o que lhe sucedeu depois da guerra ficará uma incógnita não só para seus familiares mas também para nós espectadores.
Fica a impressão de haver uma história anterior a que estamos assistindo.Ethan não voltou pra junto dos seus logo depois de finda a batalha.Teria ficado vagando pelo deserto?Teria entrado em crise por conta das atrocidades que viu e viveu?Ethan não se dá bem com seu irmão, parece não se sentir bem vindo ali.E um pouco antes da tropa de busca se formar a primeira vez para tentar encontrar gado roubado pelos índios, Martha, a cunhada de Ethan retira e desamassa com carinho um casaco que dará e ele para a jornada.Teria ela e Ethan tido um romance antes da guerra?Será que ela se casou com Aaron mesmo amando Ethan que sem dar notícias durante tanto tempo provavelmente foi dado como morto fazendo com que aceitasse a proposta do irmão dele (situação, aliás, que se repete mais tarde entre os jovens Martin e Lucy)?

Outro dos assuntos do filme é o racismo de Ethan para com Martin.Logo de cara quando os dois se conhecem Ethan faz questão de enfatizar o seu desgosto pela presença de Martin à mesa e mais tarde durante a perseguição a Debbie( a garota sequestrada por Scar) ele desdenha do ímpeto de achá-la que Martin apresenta como sendo algo sem justificativa já que eles não eram parentes de sangue.O que não impede que num ato de generosidade Ethan depois de toda a jornada com Martin pelo deserto lhe deixe todos seus bens se algo lhe acontecesse.

Depois de muitos anos Ethan e Martin encontram Debbie.Ela já não é mais uma garotinha, é a linda Natalie Wood e não parece disposta a deixar a tribo que agora chama de “seu povo”.Ethan se revolta e chega a quase atirar nela pelo que identifica como sendo uma desfeita e uma traição à sua origem americana.Mas, assim como ocorreu com Martin, Ethan salva Debbie e a entrega não à sua família que não mais existe mas à “família americana”.O mundo de onde ela saiu.
Ethan, cumprida a sua tarefa, não se junta aos outros na alegria pela volta da jovem, apenas se afasta lentamente em direção ao oeste e ao cenário inóspito, metáfora da sua alma atormentada pelo passado de tragédias e decepções.Ethan não pertence à vida em família, pertence ao deserto.

Grande parte das imagens de “The Searchers” lembram pinturas.O tratatamento dados às cores, à iluminação, a disposição dos atores em cena, toda a composição visual lembra muito a de certos pintores.
Tratamento esse que foi realçado pela restauração digital.O filme caba passando a impressão de ter sido sido feito ontem e não há cinquenta anos.

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